Voltar
12 janeiro 2026 00h05
Fonte: Observador

Obrigações soberanas da Venezuela valorizam. Terá o risco diminuído?

Observador

Na sequência dos acontecimentos de 3 de janeiro, as obrigações soberanas da Venezuela têm registado  subidas significativas. O título do tesouro com cupão de 9,25% e vencimento em 15 de setembro de 2027 é um desses casos. Com a reabertura dos mercados a 5 de janeiro, o preço subiu mais de 20%, passando de cerca de 32% para 42% do valor nominal. No dia seguinte, 6 de janeiro, voltou a valorizar cerca de 5%, atingindo aproximadamente 44%. Em apenas dois dias de negociação, a valorização superou a registada em todo o último trimestre de 2025.


Este movimento levanta a questão de saber o que o mercado estará, afinal, a comprar e se esta reação reflete uma reavaliação significativa das probabilidades associadas ao futuro político e económico da Venezuela.

A República da Venezuela emitiu, em 11 de setembro de 1997, um empréstimo obrigacionista no montante de 4 mil milhões de dólares, com prazo de 30 anos e vencimento em 15 de setembro de 2027 (ISIN: US922646AS37). Trata-se de uma obrigação soberana denominada em dólares, com cupão anual de 9,25%, pago semestralmente, e estrutura bullet, isto é, com o reembolso integral do capital apenas na data de maturidade.


Em 2018 entrou default (incumprimento) devido ao não pagamento dos cupões (juros). A Venezuela falhou o pagamento de juros em março de 2018 e, esgotado o prazo contratual de tolerância (período de graça) de 30 dias, entrou formalmente em situação de incumprimento em abril desse ano. Desde então, estes títulos permanecem em default, sem que tenha existido uma reestruturação formal da dívida.


Apesar disso, estas obrigações soberanas venezuelanas com taxa de juro de 9,25% e vencimento em 15 de setembro de 2027 registaram uma subida significativa no último trimestre de 2025. O preço passou de 25% para 32% do valor nominal, representando um ganho superior a 20% em apenas três meses, e a rentabilidade implícita (rendimento, yield) desceu para 94%, um nível que indicia ainda um elevado risco percebido pelo mercado.


Poderá a valorização no último trimestre do ano passado dever-se ao facto de alguns investidores terem "sabido alguma coisa” antecipadamente sobre a captura de Nicolás Maduro e de terem percecionado isso como favorável a uma eventual transição para uma democracia capaz de voltar a alavancar a economia venezuelana? Nos mercados de dívida soberana em incumprimento, os preços tendem a reagir antecipadamente a sinais políticos e geopolíticos. Meses antes de qualquer mudança visível, podem circular indícios em think tanks, desks de dívida soberana e fundos especializados. Esses investidores podem ter acesso a informação privilegiada sobre contactos diplomáticos discretos envolvendo os EUA, o Brasil ou a Colômbia, ou apenas a rumores consistentes sobre negociações internas no regime, ou maior pressão sobre a economia.

Partilhe este artigo