Os estreitos que dominam a economia mundial
Artigo publicado originalmente no Expresso: https://expresso.pt
Como os estreitos comandam o comércio global
De Ormuz ao Suez, passando por Gibraltar e Malaca, vários pontos críticos do comércio marítimo internacional estão hoje sob maior pressão devido ao conflito no Golfo Pérsico.
O agravamento das tensões geopolíticas voltou a evidenciar a importância estratégica dos estreitos marítimos. Estes "gargalos” concentram uma parte significativa do comércio global e funcionam como pontos de passagem essenciais para energia, matérias-primas e bens industriais.
Entre os estreitos mais relevantes destaca-se Malaca, por onde passa uma parte expressiva do comércio marítimo mundial, e Ormuz, atualmente considerado um dos pontos mais sensíveis para o mercado energético global. A instabilidade nesta região tem impacto direto nas rotas marítimas, nos custos logísticos, nos seguros e nas cadeias de abastecimento.
A crise em Ormuz reforça a ideia de que o controlo das rotas marítimas deixou de ser apenas uma questão geográfica, passando a constituir uma alavanca ativa de poder geopolítico e económico. Os estreitos são hoje ativos estratégicos, capazes de condicionar fluxos comerciais, preços de energia e expectativas de crescimento económico.
O impacto não se limita ao Médio Oriente. Para economias abertas como Portugal, a exposição direta ao Golfo Pérsico pode ser relativamente reduzida, mas a dependência sistémica é relevante. Energia mais cara, atrasos logísticos, aumento do custo do frete marítimo e disrupções nas cadeias globais de abastecimento podem afetar empresas portuguesas, sobretudo em setores dependentes de matérias-primas, transporte internacional e mercados externos.
Neste contexto, os portos portugueses podem ganhar relevância estratégica. A fachada atlântica, incluindo portos como Lisboa e Setúbal, surge como alternativa mais segura num cenário de reorganização das cadeias logísticas globais e de maior procura por rotas menos expostas aos riscos do Médio Oriente.
A crise também se cruza com a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP, decisão que acentua a pressão sobre a organização e reforça a tendência de maior autonomia entre grandes produtores de petróleo. Esta evolução poderá alterar equilíbrios no mercado petrolífero global, embora os efeitos imediatos estejam condicionados pelo risco geopolítico em Ormuz.
Em suma, os estreitos marítimos voltaram ao centro da geopolítica global. Ormuz não criou esta realidade, mas tornou-a mais visível: quem controla os principais pontos de passagem do comércio mundial detém uma forma decisiva de poder económico, energético e estratégico.