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27 fevereiro 2026 09h05

Ouro bate S&P 500 no longo prazo?

Vida Económica

O infográfico apresenta a evolução de duas variáveis macroeconómicas fundamentais, assente em dois eixos fundamentais: a inflação, no eixo vertical, e o crescimento económico/ emprego, no eixo horizontal. Assim, de acordo com as diferentes dinâmicas económicas — caracterizadas por níveis mais ou menos elevados de inflação (ou mesmo deflação) e por maior ou menor crescimento económico (ou até recessão) — as decisões de alocação de ativos devem também ser diferentes. O quarto quadrante (Q4), correspondente a um cenário de crescimento económico com baixa inflação, tende a beneficiar ativos de risco, como as ações e o crédito, sobretudo as obrigações de empresas, uma vez que o crescimento económico reduz o risco de falência e aumenta a probabilidade de as empresas honrarem os seus compromissos. Já o segundo quadrante (Q2), marcado por baixo crescimento e inflação elevada — típico de cenários de estagflação — tende a privilegiar os ativos de refúgio, como o ouro. Assim, à medida que estas duas variáveis macroeconómicas, crescimento económico e inflação, evoluem de um cenário de forte crescimento e baixa inflação, ou mesmo deflação associada a avanços tecnológicos e ganhos de produtividade, para um contexto de menor crescimento, eventual recessão e inflação elevada, também a alocação de ativos tende a deslocar-se gradualmente de ativos de risco para ativos de refúgio. Por essa razão, em certos períodos o ouro apresenta um desempenho superior ao dos índices acionistas, enquanto noutros são as ações que registam melhores resultados.


Quando coexistem crescimento e inflação elevada (1º quadrante), o mercado encontra-se geralmente numa fase mais avançada do ciclo económico, marcada por maior rotação entre setores e subida das taxas de juro, ditada por um crescimento acima do potencial da economia e consequente aumento da inflação. Já em situações de recessão com inflação baixa, tendem a destacar-se as obrigações soberanas — sobretudo de economias avançadas e com classificações de crédito pelo menos satisfatórias — bem como os ativos de setores defensivos (utilities, saúde, bens de consumo essenciais). Assim, o infográfico transmite eficazmente a ideia de que o risco macroeconómico aumenta à medida que a economia se afasta de um ponto de equilíbrio ótimo, caracterizado por baixa inflação e elevado crescimento económico. Ou seja, afastando-se da zona verde (ações/ ativos de risco) e passando gradualmente pelos tons amarelos e laranja até atingir o vermelho (ouro/ativos de refúgio, de menor risco), numa deslocação dos ativos de maior risco para os de menor risco, evoluindo de um cenário de crescimento económico associado a baixa inflação até ao extremo oposto, a estagflação, marcada por uma forte deterioração do bem-estar da população.


Se um índice acionista como o S&P 500 — nomeadamente o total return, que tem em conta também a distribuição de dividendos e representa o retorno total desse índice — bate ou não o desempenho do ouro no longo prazo dependerá, em boa medida, da interação, ao longo do tempo, entre níveis mais ou menos elevados de inflação e fases de maior ou menor crescimento económico, ou mesmo de recessão. Ou seja, como o ouro não gera qualquer rendimento, proporcionando apenas ganhos de capital, sempre que exista elevado crescimento económico num ambiente de baixa inflação, os lucros das empresas tendem igualmente a ser elevados, resultando num desempenho dos índices acionistas de referência global como o S&P 500 superior ao do ouro. O S&P 500 superou o ouro desde 1989, mas, considerando apenas os últimos 25 anos, o ouro apresenta um melhor desempenho. Desde 1989, o S&P 500, o S&P 500 Total Return e o ouro valorizaram, respetivamente, cerca de 20, 41 e 14 vezes. Já nos últimos 25 anos, essas valorizações foram aproximadamente de 5, 8 e 18 vezes.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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