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20 fevereiro 2026 06h30
Fonte: Expresso

Ouro: o ativo geopolítico da China

Expresso

O ouro tem valorizado significativamente nos últimos anos, sobretudo desde a invasão russa da Ucrânia em 2022 e o consequente congelamento dos ativos russos no Ocidente, principalmente em dólares. A tendência de subida é clara, surpreendendo apenas a rapidez da valorização. A diversificação das reservas de ouro por parte dos países do Sul Global, em especial da China, líder do desalinhamento com o Ocidente, e segunda maior economia mundial, tem ganho relevo. A China possui as maiores reservas cambiais do mundo, cerca de 3,5 biliões de dólares, dez vezes o PIB português, acumuladas ao longo das últimas quatro décadas graças aos sucessivos excedentes comerciais, e maioritariamente alocadas em dólares, mantendo menos de 10% em ouro. No Ocidente, cerca de 80% das reservas dos principais bancos centrais estão em ouro. EUA e Alemanha detêm 8133 e 3350 toneladas, respetivamente, enquanto a China tem cerca de 2400, e eram apenas 400 em 2000 e 1100 em 2015.


O ouro é um ativo especulativo, porque não gera qualquer rendimento (juros, rendas ou lucros), apenas ganhos de capital. À semelhança da teoria do tolo nos mercados financeiros, um investidor compra um ativo e espera que alguém esteja disposto a pagar mais no futuro. No caso do ouro, isso acontece há cerca de seis mil anos, desde o início da civilização, atravessando impérios e sobrevivendo à queda de moedas hegemónicas. Quando portugueses e espanhóis chegaram às Américas, há 500 anos, o ouro era também ali a principal reserva de valor.


Até 2022, a evolução da cotação do ouro era mais determinada pelas taxas de juro, sobretudo norte-americanas, do que por fatores geopolíticos. Todavia, nos últimos anos, essa relação tem-se alterado significativamente, com as tensões geopolíticas a assumirem um peso crescente na formação do preço do metal amarelo. Além disso, os défices gémeos nos EUA, orçamental e comercial, e o aumento da dívida pública norte-americana têm penalizado o dólar, reforçando a importância do ouro, assumindo o metal amarelo uma dimensão cada vez mais geopolítica, num debasement trade associado à crescente "desdolarização” da economia global. Mesmo com taxas de juro elevadas desde 2022, o dólar perde valor face ao metal amarelo. Não é o ouro que valoriza, mas o dólar que perde relevância num mundo cada vez mais incerto. O ouro é o elemento químico 79 e não pode ser impresso nem facilmente confiscado, reforçando a sua importância geoestratégica na reorganização do sistema monetário global.


O ouro não é passivo de nenhum banco central, ao contrário das divisas e dos ativos financeiros estrangeiros, como depósitos em moeda estrangeira, títulos de dívida pública, obrigações, ações e Direitos de Saque Especiais (DSE), que têm sempre uma contraparte financeira. Assim, a China, que já era o maior importador mundial de ouro, é também hoje o maior produtor, validando o regresso informal do padrão-ouro.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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