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27 março 2026 07h45

Ouro preserva valor e empresas criam riqueza

Vida Económica

A economia tende, no longo prazo, a superar ativos monetários como o ouro — e ainda bem que assim é. Isso significa que o capital é canalizado para atividades produtivas, contribuindo para o aumento do bem-estar das populações. O ouro tende a valorizar quando as taxas de juro reais descem. Como não gera rendimento, apenas ganhos de capital, é mais competitivo quando os juros são baixos ou próximos de zero. Nesses contextos, manter moeda ou ouro é indiferente, uma vez que o dinheiro parado também não gera retorno. No entanto, taxas de juro reais baixas não beneficiam apenas o ouro. Também incentivam o investimento produtivo, tal como a criação de empresas e a alocação de capital a atividades que geram valor. Quando o dinheiro não rende, há maior incentivo para o "pôr a trabalhar”, impulsionando o crescimento económico, a oferta de bens e serviços e a melhoria da qualidade de vida.


Num cenário de baixa inflação com crescimento económico sólido, as empresas tendem a apresentar mais lucros, logo melhor desempenho das suas ações. Por outro lado, em períodos de estagflação — habitualmente associados a choques energéticos ou dependência externa com baixa elasticidade de substituição — combinam-se inflação elevada com estagnação económica. Nestes casos, as empresas enfrentam mais dificuldades, os prejuízos aparecem e as ações tendem a ter fraco desempenho. É precisamente nesses contextos que o ouro tende a destacar-se, e a procura de ativos monetários aumenta, em detrimento dos ativos produtivos. Importa, no entanto, notar que taxas de juro reais baixas podem existir em ambos os cenários: em estagflação, porque a inflação elevada aproxima-se dos juros nominais, e em crescimento com baixa inflação, porque os juros são naturalmente baixos. Todavia, os resultados são muito diferentes. Num cenário de crescimento económico, as empresas geram lucros reais crescentes, enquanto num cenário de estagflação, enfrentam perdas.


Ao longo dos últimos 150 anos, a economia cresceu sustentadamente, aumentando exponencialmente a quantidade de bens e serviços disponíveis. O resultado foi uma melhoria significativa do bemestar, um aumento da esperança média de vida, do conhecimento e da qualidade de vida em geral. Desde 1871, o S&P 500, mesmo considerando apenas o índice de preços (sem reinvestimento de dividendos), superou largamente o ouro. Entre o final do século XIX e parte do século XX, o preço do ouro esteve frequentemente fixo ou sujeito a pouca variação, devido a regimes monetários baseados no ouro. O padrão-ouro clássico vigorou até à 1ª Guerra Mundial, quando as moedas eram convertíveis em ouro. Entre 1944 e 1971, vigorou o sistema de Bretton Woods, fixando o dólar em 35 dólares a onça de ouro, e as restantes moedas estavam indexadas ao dólar. A partir de 1971, o ouro passou a flutuar livremente. Na década de 1970, perante a elevada inflação e estagnação económica, o ouro subiu de 35 dólares para 800 dólares em 1980. Nesse período, as ações foram penalizadas, refletindo o fraco desempenho económico. Mais recentemente, nos últimos 20 a 25 anos, o ouro voltou a apresentar um melhor desempenho, impulsionado pelo crescimento económico mais fraco, crise energética de 2022, e procura de diversificação de reservas por parte de bancos centrais. A invasão russa da Ucrânia e o consequente congelamento de ativos russos no Ocidente culminaram num novo paradigma. Vários países, sobretudo do Sul Global, como a China, têm reduzido a exposição ao dólar e aumentado as reservas em ouro, um ativo que é mais difícil de confiscar. Em suma, o ouro não é um ativo que cria riqueza — é um ativo que preserva riqueza. A criação de riqueza resulta da atividade produtiva das empresas que produzem bens e serviços úteis à sociedade.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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