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10 março 2026 13h45
Fonte: Expresso

Pânico no mercado da Índia torna petróleo russo mais caro do que o Brent

Expresso

O barril russo de referência, dos Urais, subiu esta terça-feira para mais de 100 dólares, ficando acima da cotação do Brent pela primeira vez na história. Bloqueio do estreito de Ormuz provocou pânico no mercado indiano de importação do crude e levou a corrida ao petróleo russo, mesmo sendo de menor qualidade


Éa primeira vez na história que o barril russo de petróleo fica mais caro do que o barril de Brent. A cotação do crude russo dos Urais subiu esta terça-feira para 100,67 dólares, um aumento de 11% em relação ao dia anterior, segundo o portal Exchangerates.org.uk, que tem as cotações em tempo real. O preço do Brent situa-se em torno de 94 dólares. Em vez de um desconto de cerca de 20%, como se verificava antes do ataque israelo-norte-americano ao Irão, o crude russo é vendido agora com um prémio de seis dólares.


Nem mesmo em 2013 durante o pico da guerra civil na Síria e das tensões por todo o Médio Oriente, o crude russo chegou a igualar ou ultrapassar a cotação do Brent. A 14 de fevereiro daquele ano, o preço do barril de Brent atingiu os 118,05 dólares e a cotação do crude dos Urais chegou a um máximo de 117,65 dólares.


Enquanto as palavras do presidente Trump à CBS News na segunda-feira, antecipando que "a situação com o Irão está praticamente resolvida” e que pretendia "assumir o controlo do estreito” [de Ormuz], levaram a uma reversão do disparo nas cotações do barril de petróleo Brent e da variedade norte-americana, o efeito no crude russo foi o contrário. Esta terça-feira, o preço do Brent está a cair mais de 7% e a cotação do barril russo está a subir cerca de 11%


A cotação do petróleo dos Urais saltou de menos de 59 dólares a 27 de fevereiro para mais de 100 dólares esta terça-feira. Em onze dias subiu cerca de 42 dólares, um disparo de 70%. O crude russo está sancionado com um teto de 60 dólares para o preço. Está a ser vendido quase 70% acima.


No entanto, se as palavras mágicas de Trump acalmaram os mercados, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, alertou que esta terça-feira "será novamente o nosso dia mais intenso de ataques dentro do Irão".


Bloqueio de Ormuz lança caos nas refinarias indianas

A razão da "anomalia” atual é o pânico nos mercados de energia na Índia depois do bloqueio do estreito de Ormuz, por onde passam 40% das importações indianas de crude que são provenientes do Médio Oriente. Em rúpias, a moeda indiana, o barril dos Urais subiu esta terça-feira 10%. Desde 2 de março disparou 26%.


"A inversão súbita nos preços deve-se a um pânico na oferta física de crude na Índia. Em virtude de milhões de barris de petróleo russo estarem imediatamente disponíveis para substituir os fornecedores do Médio Oriente, o crude russo conseguiu um prémio no preço”, refere-nos o analista norte-americano Peter Cohan, a partir de Boston. "Neste momento, as refinarias indianas são os principais clientes. As empresas públicas Mangalore Refinery Petrochemicals (MRPL) e Hindustan Petroleum, e os grupos privados, como o Reliance Industries, compraram recentemente 10 milhões de barris de crude russo na frota ‘fantasma’. A oferta russa é a mais rápida disponível”, acrescenta o professor no Babson College.


"O fecho do estreito de Ormuz e a disrupção da oferta do Golfo alargaram abruptamente a base compradora do crude russo, colapsando o desconto forçado. Licenças dos Estados Unidos a refinadores indianos e a capacidade exportadora intacta da Rússia reforçam este movimento. Um eventual prémio face ao Brent refletiria acessibilidade e certeza de entrega, mas não qualidade, sendo típico de stresse localizado e tendencialmente transitório. A recompressão do diferencial dependerá sobretudo da reabertura de Ormuz, libertação de reservas estratégicas e progressos diplomáticos”, sublinha, por seu lado, João Queiroz, responsável pelo trading do Banco Carregosa. É sobretudo um prémio "pela acessibilidade logística e certeza de entrega. O mercado está a pagar mais pelo barril que efetivamente chega do que pelo barril de referência teoricamente mais líquido, mas geograficamente bloqueado”, acrescenta o analista português.


O Kremlin tem cargas de petróleo russo armazenadas em navios-tanque que navegam sem porto de destino imediato, devido a sanções ocidentais depois da invasão da Ucrânia em 2022. Esses navios da "frota fantasma" russa ocorrem, agora, às oportunidades inesperadas abertas pela guerra contra o Irão.


Para facilitar este negócio com a Índia, os Estados Unidos aliviaram temporariamente as restrições à compra de crude russo.


Anomalia de curta duração

Esta tipologia de inversão entre o Brent e os Urais é admissível "em episódios de stresse localizado na oferta e tende a ser de curta duração”, sublinha Queiroz. "A janela de inversão do desconto do crude dos Urais é real, todavia deve ser estruturalmente contingente", refere.


O Kremlin está a aproveitar esta oportunidade de mercado ao mesmo tempo que espera conseguir ganhos geopolíticos noutro tabuleiro: "a alegada chamada telefónica Trump-Putin de segunda-feira — por iniciativa de Washington — constitui um sinal mais concreto disponível de que existe disposição política para gerir a ‘desescalada’. A imprensa russa enquadra-a como potencialmente abrindo caminho a alívio de sanções sobre a energia russa, o que seria, paradoxalmente, outro fator de normalização do diferencial Urais/Brent”.


"Para os negociadores de spreads em energia, o risco é assimétrico: o upside do diferencial depende da continuação de uma disrupção geopolítica em que múltiplos atores têm incentivos para resolver. Para os investidores em majors [grandes empresas do sector da energia] com exposição russa ou em ETF [fundo de investimento negociado em bolsa como se fosse uma ação comum] de energia, o sinal relevante não é o nível absoluto do Brent — é a velocidade com que o diferencial recomprime quando (e se) o Ormuz reabrir. Para o mercado, o facto mais verificável e com maior poder explicativo continuaria a ser o spread diário Urais/Brent, que funcionará como barómetro em tempo real da intensidade e duração desta anomalia”, conclui o analista do Banco Carregosa.

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