Petróleo e gás deixam economia em estado de alerta
por: Miguel Prado (com João Silvestre, Margarida Cardoso e Sónia M. Lourenço)
O cenário de um bloqueio do estreito de Ormuz por mais duas semanas pode elevar o preço do barril de Brent para os 95 dólares já na próxima semana, segundo o Goldman Sachs. Dados da plataforma Kpler indicam que o trânsito de navios na região caiu a pique após os ataques mútuos entre EUA/Israel e o Irão. Jeremy Nixon, da Ocean Network Express, alerta que 10% da frota de porta-contentores está imobilizada, num engarrafamento caótico de 750 navios.
A materializar-se um bloqueio prolongado deste "gargalo", por onde passa um quinto dos combustíveis globais, o abalo será o pior choque energético desde 1979. Peter Cohan, do Babson College, admite ao Expresso que, se o Brent atingir os 130 dólares, enfrentaremos uma crise comparável à década de 70. João Queiroz, do Banco Carregosa, reforça que o patamar dos 100 dólares é agora um cenário central de trabalho.
Em contrapartida, o economista Ricardo Reis (LSE) relativiza a comparação com os anos 70, notando que os EUA são hoje o maior produtor mundial, oferecendo uma alternativa que não existia no passado. Contudo, avisa que o desfecho depende da escala: "É cedo para perceber se isto será um evento tipo Venezuela ou tipo a invasão da Ucrânia". O recorde histórico permanece nos 147,5 dólares de 2008 (220 dólares a preços atuais).
A Ásia é a principal vítima imediata, com a Índia a deter apenas duas semanas de reservas. A Rússia surge como beneficiária, vendendo o crude Urais com desconto à China e Índia. Paralelamente, o Catar suspendeu a produção de GNL após ataques a Ras Laffan, elevando o gás europeu para patamares acima dos 60€/MWh, pressionando a inflação mundial que o FMI estima poder saltar para os 5%.
?? Indústria portuguesa em alerta e resposta fiscal
Em Portugal, as associações setoriais (AEP, ATP, APAL, APICER) manifestam grave preocupação com os custos de produção, especialmente em indústrias intensivas como têxteis e cerâmica. Economistas como Ricardo Cabral e João Borges de Assunção apontam impactos adversos no PIB e na balança comercial, embora a trajetória da dívida pública não esteja em risco imediato.
Face a este cenário, o primeiro-ministro Luís Montenegro anunciou um desconto extraordinário no ISP caso os combustíveis subam mais de 10 cêntimos na próxima semana. O Brent já valorizou 12% desde a última sexta-feira, antecipando um dos maiores aumentos de preços dos últimos anos para os consumidores portugueses.