Voltar
24 agosto 2026 01h45

Quanto pagam os países para estar no capital das energéticas?

Quanto pagam os países para estar no capital das suas energéticas?


Conseguir ficar com o controlo total ou acudir a dificuldades financeiras são alguns dos fatores que podem ditar um preço mais alto ou mais baixo face ao atribuído pelo mercado. As operações levadas a cabo na última década na Europa têm valores e circunstâncias muito díspares.


Adquirir uma participação com influência relevante numa empresa "tem um valor". Foi assim que o ministro da Presidência António Leitão Amaro justificou o prémio que o Estado vai pagar por uma posição de 13,7% da REN. Apesar de a posição ser minoritária, o governante fala de "um poder inerente" que lhe está associado. O caso está longe de ser único na Europa.


Um levantamento feito pela Dealogic para o Negócios aponta para uma série de operações em que Estados (diretamente ou por via de bancos de fomento ou empresas públicas) adquiriram participações em empresas do setor energético, visto como estratégico, ao longo da última década. O mais sonante é a Électricité de France (EDF), a multinacional francesa de serviços públicos de eletricidade.


O Estado francês avançou, em 2023, com uma oferta sobre uma participação de 16,3% na EDF que ainda não detinha, pagando 12 euros por ação numa aquisição que ascendeu a quase 9,7 mil milhões de euros. Segundo o próprio Governo francês, o preço implicava um prémio de 53% face à última cotação antes do anúncio. A principal diferença face ao caso português é que se trata de uma nacionalização, ou seja, apesar de a transação ser de uma posição minoritária, resultou no controlo da totalidade do capital e na exclusão de bolsa a 8 de junho de 2023.


Caso comparável é o da norueguesa Hafslund. Em abril de 2017, a cidade de Oslo concordou em comprar a participação de 34,1% da empresa distrital de aquecimento urbano e produção de energia à Fortum por aproximadamente 730 milhões de euros. As 96,75 coroas norueguesas por ação representavam, de acordo com a Dealogic, um prémio de 9,64% face à cotação em bolsa e antecedeu uma compra obrigatória aos restantes acionistas minoritários pelo mesmo preço (colocando o total em 46,27% do capital, tendo culminado na exclusão da empresa do mercado de capitais).


A lista compilada pela plataforma de informação financeira inclui 11 operações dos setores das "utilities" e energia, que envolveram Estados fechadas ao longo da última década. Além da Hafslund, houve ainda outra transação a nível regional: a compra de 65,3% da empresa de águas Tallinna Vesi pela cidade de Talin em conjunto com o Commonwealth Bank of Australia, com um prémio de 1,43%.


Montenegro também fechou, em 2020, a compra da elétrica Elektroprivreda Crne Gore, enquanto a Rússia, através da sua Agência Federal da Energia Atómica, adquiriu, em duas operações, participações na Quadra-Power Generation. Se a generalidade das transações são feitas com um prémio no preço, ou a valores de mercado, há-as igualmente a desconto.


Foi o caso da compra de 16,8% da francesa Areva pelo Estado francês (onde já detinha os restantes 87%). Ofereceu 4,5 euros por ação - 6% abaixo do valor de mercado - devido às dificuldades em que a empresa de energia nuclear se encontrava. As ações tinham afundado 90% desde os máximos de 2007 e as perdas acumulavam-se, resultando numa intervenção estatal, que foi aprovada pela Concorrência, mas alvo de análise pela Comissão Europeia à luz das regras de ajudas públicas. Seguiu-se uma reestruturação com a divisão do negócio de nuclear.


Semelhante foi o que aconteceu com a Uniper na Alemanha. Durante a crise energética de 2022, o Governo alemão resgatou a empresa com um pacote de ajuda de 13,5 mil milhões de euros para evitar o colapso após o fornecedor russo Gazprom ter interrompido o fornecimento de gás. Feita em duas partes, a aquisição foi realizada a um desconto entre os 84% e os 59%.


Mas, para obter a aprovação da União Europeia para a injeção de capital, Berlim prometeu reduzir gradualmente a sua participação acionista, tendo lançado oficialmente, em maio, o processo de reprivatização. O objetivo é reduzir a participação dos mais de 99% que tem atualmente para 25% mais uma ação, o que lhe permitiria manter influência sobre decisões importantes relacionadas com a segurança energética.


No caso da portuguesa REN não são dificuldades financeiras nem o ímpeto de nacionalizar a justificar a compra de 13,7% do capital pelo Estado, como deixou claro o primeiro-ministro Luís Montenegro quando anunciou a decisão há pouco mais de uma semana.


"Fazemo-lo não para renacionalizar", mas "para estar lá dentro, para salvaguardar o interesse estratégico de Portugal na sua infraestrutura elétrica", explicou, acrescentando que a entrada no capital da empresa, da qual o Estado saiu totalmente em 2014, permitirá "participar nas decisões de investimento e estratégicas".


O Governo ainda não confirmou quaisquer números, mas o Jornal Económico avançou que a Parpública vai pagar 380 milhões de euros pelas 91,7 milhões de ações ainda detidas pelo "family office" do fundador da Zara. Fontes próximas do Executivo explicam ao Negócios que o valor final ainda não está fechado e dependerá da data em que for atribuído o visto pelo Tribunal de Contas. Além deste passo, o negócio terá ainda de ser analisado pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE).¦


13,5


RESGATE A Alemanha teve de resgatar a Uniper na crise energética de 2022 com um pacote de ajuda de 13,5 mil milhões de euros.


53%


EDF O Estado francês pagou um prémio de 53%, em 2023, para ficar com o controlo das ações que ainda não detinha na EDF.


6%


AREVA França pagou um preço 6% abaixo do mercado por 16,8% da Areva devido às dificuldades da empresa de energia nuclear.


Intenção do Estado de entrar na REN sem impacto na ação


Uma semana depois de o primeiro-ministro Luís Montenegro ter anunciado os planos do Governo, a cotada mantém-se praticamente inalterada, tal como o preço-alvo.


Um comunicado ao fim do dia e uma rentrée política que serviu de ocasião para justificar o negócio. Foi assim que o mercado ficou, na sexta-feira, dia 14 de agosto, a saber que o Estado português quer regressar ao capital da REN, de onde saiu em 2021. Uma semana volvida, a reação em bolsa foi contida, tal como esperado pelos analistas que apontam para um efeito curto na cotação da energética.


Os títulos da empresa fecharam a semana passada nos 3,55 euros cada, acumulando uma valorização de 0,28%, exatamente a mesma que na semana anterior. Desde o início do ano, a empresa responsável por garantir o fornecimento ininterrupto de eletricidade e gás em Portugal Continental valoriza 9,23%, o que coloca a capitalização de mercado nos 2.369 milhões de euros.


Os investidores que procuram a REN "são mais fundamentalistas, olham mais para aquilo que é o desempenho" da empresa, como explicou João Queiroz, "head of trading" do Banco Carregosa, em entrevista ao Negócios no Now. Admite que "é natural que um certo tipo de investidores possam não se sentir tão feliz ou tão encantado relativamente a esta operação", contudo, a cotada atrai, tipicamente, "investidores e aforradores" mais focados na negociação de médio e longo prazo.


Isto porque o modelo de negócio da empresa - altamente regulado e muito associado às decisões do Estado - acaba por trazer alguma previsibilidade à atividade. E a entrada do Estado no capital não deverá alterar a forma como os investido-


REN VALORIZA 9% DESDE O INÍCIO DO ANO


Evolução da cotação, em euros por ação


O modelo de negócio da REN chama investidores de médio e longo prazo, dando estabilidade ao preço da ação. Apesar da reação contida da semana passada ao anúncio de Luís Montenegro, desde o início acumula um ganho na ordem dos 9%.



A refletir esta expectativa está a inexistência de mudanças no preço-alvo das ações ao longo da última semana. O "target" para os próximos 12 meses


[Investidores da REN] são mais fundamentalistas, olham mais para o desempenho. JOÃO QUEIROZ Banco Carregosa


manteve-se inalterado em 3,79 euros por ação (com um potencial de valorização de 6,8%), com seis dos 10 analistas que cobrem a cotada a recomendar aos clientes a "compra" das ações, três recomendam "manter" e um "vender". LMF/RRF


A ação subiu 0,28% na última semana, não tendo havido quaisquer mudanças ao preço-alvo.


A nacionalização da EDF foi uma das maiores operações recentes na Europa.


LEONOR MATEUS FERREIRA leonorferreira@negocios.pt

Partilhe este artigo