Quem foi ao IPO da Galp ganhou quase oito vezes mais
Notícia originalmente publicada em: Expresso, 23 de outubro de 2026
Mercado Galp foi para a bolsa há 20 anos, com ganhos acumulados para os acionistas. Negócio mudou e Brasil é hoje o motor de crescimento
BÁRBARA SILVA, GONÇALO ALMEIDA, MIGUEL PRADO
Empresa entrou em bolsa há 20 anos e atraiu mais de 100 mil investidores Investimento de €1000 na altura vale hoje €7700 Operação de venda inicial força a exploração de petróleo Brasil é o principal motor de crescimento E6
Aquele ano estava a ser um dos mais agitados da bolsa de Lisboa em muitos anos, e a entrada em bolsa da Galp deu um forte empurrão. “Havia um grande entusiasmo”, explica Carlos Rodrigues, presidente da Maxyield, clube dos pequenos acionistas, na altura com 52 anos. Essa operação viria a tornar-se um sucesso para quem foi às compras: quem tivesse aplicado €1000, hoje teria em mãos €7700, antes de impostos, se tiver reinvestido todos os dividendos pagos desde então. Quase oito vezes mais. Por comparação, quem tivesse comprado ações da Jerónimo Martins naquela altura teria um retorno dez vezes superior, e na EDP cerca de quatro.
O índice nacional PSI fechou 2006 com uma subida de quase 30%, um dos melhores anos desde a euforia do final da década anterior, e os corredores do poder económico viviam ao ritmo de duas batalhas sem precedentes, com a Sonae a tentar comprar a PT e o BCP a lançar-se sobre o BPI. Foi nesse ambiente de entusiasmo que a Galp se lançou ao mercado, a 24 de outubro, numa oferta pública de venda (conhecida pela designação internacional IPO).
“Houve muito entusiasmo em relação a isto, até porque havia um interregno no entusiasmo das privatizações depois das dotcom, e estivemos anos com algum receio em investimentos, num mercado menos atrativo. Em 2006, os receios com o mercado estavam diluídos”, continua Carlos Rodrigues. Nesse dia, 104.282 acionistas correram para comprar ações da petrolífera nacional, uma operação que atraiu o mercado, espelhado na procura que superou em 17 vezes a oferta de títulos que iam ser negociados em bolsa. No final dessa sessão, a Galp passava a ser a segunda cotada do PSI-20 com mais acionistas, apenas superada pela EDP.
O Estado, que tinha cerca de 30% da empresa, vendeu 23% e encaixou €1,1 mil milhões. Ao lado ficavam a italiana Eni e a Amorim Energia, com cerca de um terço cada. Manuel Pinho era o ministro da Economia na altura. Lembra que o momento “permitiu ao Estado fazer um tremendo encaixe financeiro” e enquadrava-se na estratégia de trazer mais concorrência, menos dependência energética e mais disciplina de mercado.
Paula Amorim, presidente do conselho de administração da Galp, diz ao Expresso que a entrada em bolsa “marcou o início de um novo capítulo” e trouxe “uma responsabilidade acrescida perante os nossos acionistas”. Vinte anos depois, a Galp “transformou descobertas no Brasil em ativos de classe mundial” e, com a Namíbia, tornou-se “pela primeira vez operadora no segmento de exploração e produção”. “Este percurso não foi linear”, reconhece.
Um prospeto de 500 páginas
Pedro Dias, diretor da área de finanças corporativas, que organizou a operação com a Caixa, o BES, a Merrill Lynch e a Morgan Stanley, recorda um prospeto de 500 páginas e muitas discussões com a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Das 30 páginas dedicadas aos negócios, só três falavam da exploração e produção de petróleo, que valia então 3,7% do EBITDA, contra 64% hoje. “Em julho de 2006 tivemos as grandes descobertas petrolíferas no Brasil. Não tínhamos bem a noção da dimensão”, conta. Nos roadshows por Lisboa, Madrid, Europa e Estados Unidos, a aposta passava pela refinação, pelos investimentos em Sines e pelo gás. Como até então não estava cotada, a empresa teve de reforçar a transparência e aproveitou para modernizar e automatizar o reporte interno, para que estivesse pronto “no dia 1”.
Na estreia, a Galp produzia cerca de 9 mil barris de petróleo por dia. Este ano deverá chegar aos 130 mil, sobretudo com os campos em águas profundas do Brasil. “Quando entrou em bolsa, era observada essencialmente como uma empresa ibérica de refinação e distribuição de combustíveis”, lembra João Queiroz, diretor de trading do Banco Carregosa. Para o analista, a valorização “refletiu, sobretudo, a capacidade de criar valor através da gestão do portefólio de exploração e produção”. Na estreia, a Galp pesava 2,4% do PSI-20 e representa hoje 11,95%, atrás do BCP e da EDP.
A 9 de novembro de 2007, com a confirmação das descobertas petrolíferas no campo brasileiro de Tupi, a ação disparou 24,7%, a maior subida numa sessão, e em dezembro chegou aos €19,03, um máximo que ficou mais de 16 anos por bater. Em dez meses, a crise financeira tirou-lhe quase 70% do valor e, a 27 de outubro de 2008, fechou nos €6,05, a 4% do preço da oferta, o mais perto que esteve. Em 20 anos, nunca fechou abaixo dos €5,81. A segunda maior subida chegou a 22 de abril de 2024, com Mopane, na Namíbia (+20,6%), e uma das maiores quedas em dezembro do ano passado (-14,7%), com a cedência de metade do campo à TotalEnergies. “O mercado atribui hoje um prémio opcional associado à exploração”, diz Queiroz. A Goldman Sachs aponta a Galp como a petrolífera europeia com maior crescimento de produção até 2027, de 17%, com o arranque do campo de Bacalhau no Brasil, e admite que chegue aos 48% em 2033 com Venus e Mopane, na Namíbia. Com o acordo de dezembro, a TotalEnergies vai pagar metade do investimento da Galp no desenvolvimento inicial de Mopane.
Quem ganhou com a Galp
A Eni vendeu os seus 33,34% entre 2012 e 2014, por cerca de €3,3 mil milhões, depois de ter pago cerca de €900 milhões. Parte foi comprada pela Amorim Energia, que em 2012 pagou €14,25 por 5% do capital e em 2016 vendeu essa fatia a €11,69. A holding, com sede na Holanda e onde a família Amorim se junta à Sonangol, passou pela disputa entre a petrolífera angolana e Isabel dos Santos, sócia nesta posição até 2021, e tem hoje 37,5%, sem ter comprado ações desde 2016. Recebeu cerca de €2,5 mil milhões em dividendos desde o IPO, quase cinco vezes o que foi pago ao Estado.
O Estado ficou com 7% e a participação subiu desde então para 8,42% sem o Estado comprar uma única ação, porque a Galp foi anulando ações próprias. Vale hoje €1,4 mil milhões e rendeu ao Estado cerca de €530 milhões em dividendos. Para Queiroz, a venda “não deve ser encarada como um objetivo natural ou inevitável”, porque a refinação e a logística, em particular Sines, “podem ganhar relevância adicional para Portugal e para a própria Europa”. galmeida@expresso.impresa.pt
GALP PRODUZIA CERCA DE 9 MIL BARRIS DE PETRÓLEO/DIA, HÁ 20 ANOS. ESTE ANO DEVERÁ CHEGAR AOS 130 MIL, À BOLEIA DO BRASIL
Galp mudou em duas décadas: vendas a retalho pesam menos e exploração ganhou força FOTO D.R.
Lucro deve subir 56% no terceiro trimestre
A Galp deverá apresentar um resultado líquido de €634 milhões no terceiro trimestre deste ano, o que representa um aumento de 56% face ao mesmo período do ano passado. Este valor resulta da média das estimativas dos 21 analistas que acompanham a empresa, divulgadas no seu site. Representa também um aumento de 17% face ao segundo trimestre. O maior salto deverá vir da refinação e da comercialização de gás e petróleo, onde o EBITDA (resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) deverá duplicar face ao ano passado, para €630 milhões, e subir 38% face ao segundo trimestre. A exploração e produção deverá gerar €691 milhões, mais 49% do que há um ano, com o arranque do campo de Bacalhau, no Brasil. A área comercial deverá manter-se nos €118 milhões e as renováveis deverão somar €43 milhões, contra €16 milhões há um ano. A empresa apresenta resultados esta segunda-feira, dia 26 de outubro, antes da abertura do mercado. G.A.
Entrada em bolsa tornou petrolífera mais “apetitosa”
À frente do conselho de administração, Paula Amorim diz que o IPO “marcou um novo capítulo na história da Galp”
Nasceu em abril de 1999, por decreto-lei do Governo de António Guterres, que agrupou as participações estatais na Petrogal, Gás de Portugal e Transgás. Sete anos depois, quando se estreou no mercado de capitais, a 23 de outubro de 2006, a Galp era já uma “empresa em enorme transformação, a caminho da maioridade”, lembra ao Expresso Fernando Gomes, ex-presidente da Câmara do Porto e ex-ministro, que em 2005 integrou a Comissão Executiva liderada por José Marques Gonçalves. De lucros de €45,2 milhões em 2000, a empresa chegou a €468 milhões em 2006, um salto de 935%. Nesse tempo teve como presidentes executivos Manuel Ferreira de Oliveira e António Mexia.
“Antes de entrar em bolsa, a Galp produzia e vendia combustíveis. Tinha uma atividade rentável, era uma cash cow, mas não chegava. Numa visão de curtíssimo prazo, a administração anterior chegou a pensar em abandonar a operação em Angola. Alguém dizia que se ganhava mais dinheiro a vender sandes e Coca-Colas nas áreas de serviço do que a produzir petróleo”, lembra Fernando Gomes, hoje com 80 anos. Vingou a decisão contrária: “Para estar ao lado de grandes players internacionais do sector do petróleo, sem ser um parceiro envergonhado, a Galp precisava do IPO. Sem isso, faltava-lhe a maturidade para ser uma empresa credível.”
O antigo administrador executivo lembra que o IPO “coincidiu com uma parceria fantástica com a Petrobras”, no Brasil, país onde a Galp já tinha 54 blocos. Por essa altura, confirmaram-se as gigantescas reservas petrolíferas do pré-sal na bacia de Santos.
“Ninguém entra na exploração e produção de petróleo sozinho. A Galp teve de entrar em bolsa para atingir um crescimento que era previsível, mas não tão grande como acabou por ser”, diz Fernando Gomes. Depois de vender os ativos angolanos em 2023, o Brasil é hoje o maior motor de crescimento da empresa e há planos para crescer do outro lado do Atlântico. Soma-se a aposta na Namíbia, com a TotalEnergies, com os primeiros barris previstos para 2031.
Naquela que ficou conhecida como a quarta privatização da Galp, em 2006 o Estado vendeu em bolsa 23% do capital da empresa e ficou apenas com 7%. “Quando deixou de ter um peso tão grande do Estado, a Galp ganhou outra dimensão empresarial. Durante muito tempo a empresa foi acompanhada de perto pelo poder político, sempre com um pezinho lá dentro. A presença do Estado trazia menos liberdade de escolha ao nível das grandes decisões económicas”, garante Fernando Gomes.
Depois do IPO, a Galp ficou com dois grandes acionistas de referência: a Amorim Energia e a italiana Eni (cada uma com 33,34%). O controlo partilhado durou até em 2015, quando a Eni saiu em definitivo. Do lado do Governo, o ministro da Economia na altura, Manuel Pinho, diz ao Expresso que a entrada em bolsa deu à Galp um núcleo acionista com forte componente nacional. “Era um patinho feio e transformou-se numa joia da coroa”, afirma o antigo governante, hoje com 71 anos.
Neste momento, a Amorim Energia é o maior acionista, com 35,8% da empresa, e Paula Amorim a mulher aos comandos do conselho de administração. O Estado português tem 8%, através da Parpública, e há 56,2% dispersos em bolsa. “Vinte anos depois, a Galp é uma empresa profundamente diferente. Não basta olhar para a valorização da empresa ou para o retorno entregue aos acionistas, mas sim reconhecer a construção de uma companhia portuguesa com relevância internacional”, disse ao Expresso a responsável.
Também Fernando Gomes olha hoje para a Galp como uma “empresa mais sólida e mais apetitosa no mercado”. Em 2025 teve lucros de €1154 milhões e no primeiro semestre de 2026 alcançou €812 milhões. “Quando decidimos avançar com o IPO, tínhamos a convicção que seria um grande passo em frente”, diz.
Quanto ao futuro, e ao acordo que a Galp tem em cima da mesa para fundir os ativos de venda de combustíveis e de refinação com a espanhola Moeve (ex-Cepsa), Manuel Pinho aponta para “grandes riscos”. Fernando Gomes diz que “a Galp fará o que bem entender, porque é uma empresa privada”, mas não acredita que a petrolífera vá criar um conflito com o Estado. Já Paula Amorim frisa que “o futuro exigirá a mesma coragem para tomar decisões, a mesma capacidade de adaptação e o mesmo compromisso com a criação de valor”. B.S. e M.P.