Recursos energéticos naturais de Portugal: sol, água, vento e biomassa
As barragens, o sol, o vento e as florestas representam hoje a principal riqueza de Portugal em recursos naturais energéticos. Portugal não explora petróleo. O país procura evitar impactos ambientais significativos, o que poderia ter um custo elevado caso não dispusesse de fontes de energia renováveis abundantes. Trata-se quase de um "milagre das renováveis”.
As tempestades que assolaram Portugal ao longo de todo o mês de janeiro e parte de fevereiro penalizaram muitas famílias, sobretudo no centro do país, causando elevados prejuízos e podendo afetar o PIB português e penalizar as contas públicas. Todavia, nem tudo foi negativo. As albufeiras das barragens ficaram cheias, o que tem permitido, durante algumas horas do dia, preços de eletricidade mais baixos, e por vezes mesmo mais baixos do que na vizinha Espanha, bem como uma maior abundância de energia, reduzindo a necessidade de utilização do gás natural na produção de eletricidade. Também a forte produção solar nas últimas duas semanas, marcadas por dias limpos, tem contribuído para a queda dos preços da eletricidade. O preço da energia elétrica na Península Ibérica atingiu valores de zero euros no fim de semana e, a meio do dia, registou mesmo valores negativos de -10 euros por MWh, podendo afirmar-se "bendito sol”, que beneficia Portugal e Espanha, dada a elevada exposição solar ao longo do ano. Por sua vez, a energia eólica tem produzido significativamente, sobretudo no inverno, beneficiando da exposição ao Atlântico e de um relevo relativamente elevado em algumas regiões, tornando essas zonas mais ventosas e propícias à produção de energia eólica, responsável por 30% da eletricidade portuguesa. Por fim, Portugal tem extensas áreas florestais, cujo potencial de biomassa poderia ser melhor aproveitado, nomeadamente na prevenção dos incêndios de verão (apesar do implacável "30/30/30” mediterrânico, ou seja, humidade relativa abaixo de 30%, temperatura acima de 30 °C e vento superior a 30 km/h). A biomassa representa 8% da eletricidade produzida, sendo a Navigator responsável pela maior parte dessa produção, com cerca de 2,5 TWh anuais, contribuindo para um total de quase 4 TWh de bioenergia. As albufeiras das barragens, algumas de fio de água (em rios) e outras de armazenamento, sobretudo no litoral norte de Portugal, mais chuvoso, beneficiam da água da serra da Peneda-Gerês, onde se destaca o sistema hidroelétrico do Tâmega, uma verdadeira "gigabateria”, bem como a central de bombagem reversível de Frades, no Alto Rabagão, ligada ao sistema do Cávado. As albufeiras são "baterias naturais” e estendem-se a todo o território, incluindo a bacia do Mondego e o sul do país. A barragem de Girabolhos poderia já estar a produzir cerca de 1% das atuais necessidades de eletricidade de Portugal. Destacam-se ainda a barragem de Castelo de Bode, no Zêzere, e o Alqueva, a sul, com uma potência instalada de 520 MW, produzindo anualmente cerca de 500 GWh de eletricidade (cerca de 1% do consumo elétrico nacional), incluindo também uma central fotovoltaica flutuante de 4 MW (12 mil painéis). Em 2025, as barragens portuguesas responderam por 30% da produção elétrica.
Nas últimas semanas, apesar da guerra no Médio Oriente, a Península Ibérica é quase um oásis energético na Europa. Nos países escandinavos, com muita hídrica, os preços da eletricidade rondam os 20 €/MWh. Em França perto dos 50 €/MWh, apesar do nuclear, e na Alemanha são ligeiramente superiores. Já em Itália, os preços atingem cerca de 150 €/MWh, refletindo a forte dependência do gás natural, responsável por cerca de metade da produção elétrica. A abundância de recursos energéticos endógenos permite a Portugal atrair data centers, indústria, serviços e outros investimentos, beneficiando de eletricidade relativamente barata, uma forma eficiente de absorver o excesso de produção elétrica. No ano passado, Portugal importou 4 245 milhões de euros de petróleo, a um preço médio de 64 dólares por barril, e 1 800 milhões de euros de gás natural, correspondendo a uma fatura energética de 2% do PIB nominal. Caso, devido ao conflito no Médio Oriente e ao consequente bloqueio do estreito de Ormuz, Portugal venha a comprar energia em 2026 a preços ao dobro, isso poderia ser sinónimo de uma perda adicional de 2% do PIB. O sistema elétrico nacional tornar-se-ia talvez mais resiliente com uma eventual aposta futura em SMR (pequenos reatores nucleares).
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa