Regresso do Homem à Lua ditará hegemonia? China ou EUA?
Donald Trump deu início à guerra comercial entre os EUA e a China durante o seu primeiro mandato, um conflito que revelou o receio crescente dos EUA face ao avanço tecnológico chinês. Embora intitulada de "guerra comercial”, trata-se, essencialmente, de uma disputa pela supremacia tecnológica, fator determinante da hegemonia global.
A coesão interna da China e a sua aposta na eficiência energética têm sido fundamentais para o progresso tecnológico do país. Tal como na Revolução Industrial britânica do século XVIII — em que carvão e tecnologia impulsionaram a economia inglesa — hoje, tecnologia e energia continuam a andar lado a lado. Quem dominar ambos os setores, dominará a economia global.
Os EUA, atualmente autossuficientes em combustíveis fósseis, já não enfrentam a vulnerabilidade energética das décadas passadas. Contudo, a China também avançou significativamente na área energética e, mais notoriamente, no domínio académico e científico. O país forma anualmente um número muito superior de estudantes nas áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), reforçando a sua trajetória rumo à liderança tecnológica.
Um dos marcos simbólicos dessa supremacia seria o regresso do ser humano à Lua. Enviar sondas já se tornou comum entre as potências espaciais, mas colocar um humano na superfície lunar e trazê-lo de volta com segurança representa um desafio técnico muito mais complexo. Conseguir esse feito sem riscos significativos é um indicador de maturidade tecnológica e poder económico.
Surge, assim, uma nova corrida espacial, mais de meio século após a última missão tripulada à Lua (em 1972). Embora liderada por EUA e China, Rússia e Índia também disputam esse palco. Em janeiro de 2019, a China tornou-se o primeiro país a pousar uma nave (Chang’e 4) no lado oculto da Lua — um feito que destacou as suas capacidades tecnológicas e colocou-a na dianteira da corrida.
Mais recentemente, em 2024, a missão chinesa Chang’e 6 trouxe à Terra amostras de solo e rocha do lado oculto da Lua — outra façanha inédita. Esta operação implicou desafios significativos, dado que o lado oculto da Lua não tem comunicação direta com a Terra. Devido à rotação sincronizada da Lua, essa face nunca está visível do nosso planeta, bloqueando as ondas de rádio. Por isso, é necessário usar um satélite retransmissor para manter comunicações entre a nave e a Terra, e ainda programar a sonda para atuar autonomamente durante a descida.
Na década de 1960, as alunagens norte-americanas ocorreram todas no lado visível da Lua, como a Apollo 11 em 1969, garantindo comunicação constante — essencial à segurança da tripulação. O lado visível também já tinha sido amplamente cartografado, o que proporcionava maior previsibilidade para as missões tripuladas.
Por outro lado, a Índia também deu um passo relevante nessa nova corrida. Em agosto de 2023, a missão Chandrayaan-3 realizou um pouso suave perto do polo sul lunar, tornando-se o quarto país a alcançar tal feito. Esta conquista reforça a ascensão tecnológica do Sul Global, destacando o papel crescente da região do chamado "círculo de Valariepieris” — zona onde vive a maior parte da população mundial e que se tem tornado o novo epicentro económico global.
Neste contexto, a corrida à Lua transcende o simbolismo da exploração espacial. Representa a afirmação de poder tecnológico, científico e económico num mundo multipolar em transformação. A liderança nesta corrida não dependerá apenas de verbas governamentais, mas também da capacidade de coordenar ciência, indústria, energia e recursos humanos de forma eficaz.
Se a China for o próximo país a colocar um ser humano na Lua, isso poderá selar uma nova era de hegemonia tecnológica — não apenas pelo feito em si, mas pelo que representa em termos de capacidades acumuladas em engenharia, energia, robótica, inteligência artificial e logística. A Lua é, neste cenário, mais do que um destino: é um palco de afirmação geopolítica num século em reconfiguração.
Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa