Reservas são a chave para acalmar o preço do petróleo
Os analistas consideram que a escalada do valor do barril para perto de 120 dólares reflete movimentos especulativos, sem que haja um desenvolvimento no conflito que o justifique. Se a guerra se prolongar, poderá, contudo, ter maiores efeitos na economia e na inflação.
O petróleo está a ser vítima do conflito no Médio Oriente. Os mercados entraram em modo de pânico, com os preços da matéria-prima a dispararem para níveis que não se viam desde 2022, no início da guerra na Ucrânia, e os investidores a tentarem avaliar o impacto para a economia, para a inflação e, consequentemente, para as ações dos bancos centrais.
"Os mercados petrolíferos entraram em pânico. Os preços dispararam para mais de 100 dólares, à medida que a guerra com o Irão aumentou os níveis de tensão", alerta Norbert Rücker, líder de análise económica e próxima geração da Julius Baer, numa nota a que o Negócios teve acesso. "A maior parte desta oscilação parece ser fruto de nervosismo e especulação, uma vez que não foram observadas mudanças fundamentais tangíveis e significativas no conflito durante o fim de semana", admite.
Na madrugada desta segunda-feira é que o pico se deu. O barril de Brent chegou a disparar 28,92% para 119,50 dólares, impulsionado pela decisão do Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, três grandes produtores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), de reduzirem a produção de crude devido à falta de espaço de armazenamento.
A escalada do crude acabou por ser contida por notícias de que o G7 estará a ponderar intervir no mercado petrolífero. O Financial Times (FT) noticiou que os ministros das Finanças do G7 estariam a considerar introduzir petróleo das suas reservas estratégicas no mercado, numa ação coordenada com a Agência Internacional de Energia.
Após um encontro do grupo, o ministro das Finanças de França, Roland Lescure, adiou a decisão. "Concordámos acompanhar a situação de perto e estamos prontos para tomar todas as medidas necessárias, incluindo a utilização de reservas estratégicas, para estabilizar o mercado", disse.
Segundo a CNBC, haverá uma nova reunião hoje e os EUA defendem a libertação de 300 a 400 milhões de barris, cerca de 30% das reservas do grupo, que totalizam 1,2 mil milhões. "Eu tenho um plano para tudo", garantiu Donald Trump ao New York Post.
A subida do Brent do Mar do Norte, crude negociado em Londres e referência para as importações europeias, acabaria por desacelerar e acabar mesmo por inverter para o vermelho, cedendo 1,15% ao início da noite, para 91,65 dólares por barril. Já o West Texas Intermediate, "benchmark" nos EUA, que chegou a escalar 31,44% para 119,48 dólares, recuava 3,48% para 87,68 dólares. Isto depois de Trump vir dizer que a guerra estaria perto do fim. A evolução está agora dependente da duração do conflito. "Tendo em conta que o conflito entrou na sua segunda semana e não existe um caminho claro nem um calendário previsível para um cessar-fogo, não é surpreendente que os 'traders' de petróleo estejam a incorporar nos preços um cenário futuro de redução da oferta, o que tem resultado em preços mais elevados. Esta dinâmica tenderá a intensificar-se quanto mais tempo o conflito se prolongar", explica Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe.
A Julius Baer concorda que, para a economia mundial sofrer um impacto significativo devido a um choque duradouro nos preços da energia, o conflito no Médio Oriente necessitaria de se intensificar drasticamente, muito para além da dinâmica atual. "O nosso cenário-base continua a ser o de um pico intenso e de curta duração nos preços da energia. Ainda não foram constatados danos significativos nas infraestruturas, e a ameaça militar do Irão parece estar a diminuir", disse Rücker, reiterando a visão neutra da gestora sobre o petróleo e o gás natural.
Já o BNP Paribas define três cenários: um regresso ao "status quo" após algumas semanas; um período prolongado de incerteza política no Irão, conduzindo a um aumento relativamente modesto, mas sustentado, dos preços do petróleo e do gás; ou tensões agudas e sustentadas sobre o fornecimento de petróleo e gás. "Os dois últimos cenários constituiriam um choque estagflacionista, ou seja, um choque que abranda o crescimento e aumenta a inflação", adiantam os analistas do banco francês, que sublinham, contudo, que o crescimento económico estava "robusto" e a inflação "controlada". "Consequentemente, mesmo em cenários adversos, o crescimento abrandaria significativamente, mas permaneceria positivo, e os principais bancos centrais seriam forçados a endurecer a sua postura atual apenas na hipótese do cenário mais severo", dizem.
Os "traders" dão como certo que o Banco Central Europeu suba as taxas de juro uma vez e começam a admitir que o possa fazer uma segunda vez. Já no caso da Reserva Federal dos EUA, a perspetiva é que adie o corte de juros que era esperado na primeira metade do ano. "Um cenário de preços da energia mais persistentemente elevados ameaçaria perturbações mais significativas e efeitos de arrastamento sobre a inflação que poderiam exercer uma pressão ascendente sobre as expectativas. Em tal cenário, seria provável que a Fed e o BCE adotassem um tom mais 'hawkish', com as subidas das taxas a agravarem a pressão exercida pelas disrupções da oferta sobre a atividade", alerta a equipa de "research" do BPI.¦
66
A maior parte desta oscilação parece ser fruto de nervosismo e especulação.
NORBERT RÜCKER Líder de análise económica e próxima geração da Julius Baer
66
Esta dinâmica tenderá a intensificar-se quanto mais tempo o conflito se prolongar.
RICARDO EVANGELISTA CEO da ActivTrades Europe
Filho de Khamenei é o novo líder do Irão. Turquia na mira.
O Irão escolheu o filho de Ali Khamenei para líder supremo. A NATO intercetou um míssil iraniano no espaço aéreo turco.
Os ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irão prosseguiram, tal como os mísseis e drones iranianos continuam a fazer mira a alvos em vários países. As defesas da NATO, aliás, intercetaram um míssil iraniano no espaço aéreo turco, sendo já a segunda vez que tal sucede,
num sinal de que a Aliança
poderá ser arrastada mais diretamente para o conflito.
Em Teerão foi escolhido o novo líder supremo e a opção por Mojtaba Khamenei, o segundo filho do anterior ayatollah, Ali Khamenei, morto na ofensiva em curso, constitui um claro sinal de desafio a Washington e Telavive. A Casa Branca e Israel já indicaram publicamente que Mojtaba Khamenei passa a ser um alvo a abater.
Mojtaba é, de acordo com uma investigação da Bloomberg, dono de uma fortuna considerável, embora a sua dimensão seja difícil de calcular, uma vez que a maioria do património é controlado através de empresas-fachada. Ainda assim, a Bloomberg refere que o novo líder supremo iraniano tem contas em bancos na Suíça, propriedades de luxo em Londres que valem centenas de milhões de euros, bem como uma "villa" de luxo no Dubai e hotéis de luxo no continente europeu, nomeadamente em Frankfurt e Maiorca. O novo ayatollah terá ainda várias empresas de transporte marítimo na zona do Golfo, indica a mesma investigação.
O segundo filho de Ali Khamenei era visto como
700
DESLOCADOS A ofensiva
israelita já provocou perto de 700 mil deslocados e 400
mortes no Líbano.
uma importante figura nos bastidores do regime iraniano, tendo uma ligação próxima com a Guarda Revolucionária Islâmica.
No terreno, a situação continua a agravar-se, com o Presidente russo, Vladimir Putin, a declarar que o estreito de Ormuz está, efetivamente, "fechado". Putin aproveitou para dizer aos líderes europeus que a Rússia está disponível para fornecer hidrocarbonetos à Europa desde que lhe seja pedido.
Noutra frente, a ofensiva lançada por Israel no Líbano prossegue, com Telavive a justificar os ataques com a presença do Hezbollah no país. O Governo libanês apelou a um cessar-fogo e negociações com Israel com supervisão internacional para que haja um apoio de outros países para que as forças militares libanesas possam atacar e desarmar as zonas controladas pela milícia fundamentalista islâmica.
Os ataques de Israel já provocaram 400 mortes e quase 700 mil deslocados no Líbano, de acordo com a Unicef.¦
PEDRO CURVELO
PONTO
DE VISTA
AGOSTINHO PEREIRA DE MIRANDA Advogado e presidente da associação ProPública Direito e Cidadania
Preço do petróleo:
a descida ao inferno
Chamem-me "catastrofista". Enquanto os economistas de serviço andam pelas televisões a consolar as pias almas que acreditam em milagres, eu vejo pecados cada vez mais mortais que nos estão a atolar num inferno de violência, vingança e privação. Alimentado a petróleo.
A guerra no Golfo Pérsico, dominada pela insanidade púbere dos que apenas acreditam no poder e na força, está para durar. A "eleição" no Irão de um príncipe herdeiro em cujas veias corre sangue tirano, e que acabou de enterrar a mulher e dois filhos, não prenuncia nada de bom.
Mas, como sempre, vai ser o dinheiro e os recursos que este pode comprar que ditarão o curso da guerra. Acima de todos está, por nosso mal, o petróleo.
As "linhas vermelhas", como agora se diz, do conflito foram todas elas ultrapassadas: primeiro o bloqueio do Estreito de Ormuz, um acontecimento sem precedente histórico; depois, a generalização dos ataques a todos os países do Golfo, com exceção de Omã; e nos últimos dias a destruição de infraestruturas de produção, refinação e transporte de petróleo e gás natural.
Estou eu surpreendido que o petróleo tenha chegado, por algumas horas, aos 120 dólares, e que continue, à data deste escrito, acima dos 100? Nem por isso. Os especuladores dos barris de papel - vinte a trinta vezes mais numerosos do que os barris físicos - passaram o fim de semana a salivar ante a possibilidade de ganhos recorde com a instabilidade gerada pela nova liderança iraniana.
No Paquistão, que importa do Golfo 80 a 90 por cento do petróleo e gás natural de que necessitam os seus mais de 250 milhões de habitantes, o inferno da escassez já começou. Seguir-se-ão outros países na Ásia Oriental. E não só.
Entre nós, continuaremos a ter subidas de preços dos combustíveis dramáticas, mas que nem precisam
de explicação pública por
parte dos seus responsáveis, e caminharemos rapidamente para um surto inflacionário e o aumento das taxas de juro. Com alguma sorte, não haverá escassez de combustível nos postos de abastecimento. Mas, recordemos, isso já aconteceu. E várias vezes, apenas nas duas últimas décadas. Talvez o Governo devesse começar a pensar nisso.¦
Vai ser o dinheiro e os recursos que este pode comprar que ditarão o curso da guerra.
Reservas são chave para acalmar crude. Europa espera para agir nas bombas
As maiores economias europeias ainda não agiram sobre o aumento dos preços dos combustíveis e a principal forma que têm de intervir no mercado petrolífero é através das reservas do G7. Os EUA têm insistido numa terceira via: aumentar a oferta.
DIOGO MENDO FERNANDES diogofernandes@negocios.pt
Portugal foi um dos primeiros países da União Europeia (UE) a pôr em prática medidas para fazer face à subida dos preços dos combustíveis na bomba, ainda antes de o Brent, de referência para as importações europeias, ter ultrapassado a fasquia dos 100 dólares por barril. Pelas maiores economias do Velho Continente, a forma de agir sobre os preços nos mercados internacionais será através do G7 - que junta Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos - que tem a possibilidade de intervir no mercado aumentando o crude disponível, à semelhança do que aconteceu em 2022.
Aliás, as decisões tomadas após a
invasão russa da Ucrânia podem servir de barómetro.
É na Ásia onde os países são mais dependentes do crude desta região e que passa em grande parte pelo Estreito de Ormuz, praticamente encerrado ao trânsito, que foram introduzidas mais medidas para lidar com a subida para os consumidores. Na China, o segundo maior consumidor mundial de petróleo, o Governo suspendeu as exportações de produtos derivados, mas tal não impediu os preços na bomba (que são regulados) de terem o maior aumento desde
março de 2022, um mês depois do
início da guerra na Ucrânia.
Outras grandes economias da região como a Coreia do Sul e o Japão impuseram limites nos preços cobrados e estão a avaliar a libertação de reservas de crude para conter os preços. No caso da Índia, o país mais populoso do mundo estará a beneficiar de um passo atrás dado pela Administração norte-americana, que passou a permitir a compra de petróleo
russo.
Membros do Executivo liderado por Donald Trump explicaram que esta é uma exceção visando equilibrar o mercado, aumentando a oferta disponível, e que não muda o posicionamento dos EUA relativamente às relações de Nova Deli com Moscovo. O desbloquear de crude russo sancionado, como mencionado pelo secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, poderá mesmo ser uma forma de restabelecer a ordem no mercado petrolífero, libertando uma grande fonte de oferta e está a ser estudado.
A Administração Trump tem evitado falar sobre o aumento dos preços dos combustíveis e reforça a narrativa de que este incremento será sempre temporário e necessário para combater o regime iraniano. No entanto, os EUA são dos países a apoiar uma ação conjunta pelo G7, através da libertação coordenada de reservas de crude dos países membros, em coordenação com a Agência Internacional de Energia (AIE).
A última vez que o grupo das sete maiores economias mundiais recorreu a este mecanismo foi em 2022, logo após a invasão russa da Ucrânia, e foram colocados no
mercado 180 milhões de barris de
crude em duas tranches distintas. Segundo o Financial Times, os
EUA consideram apropriada a libertação conjunta de 300 a 400
milhões de barris - cerca de 30% das reservas do grupo, de 1,2 mil
milhões. Esta é uma das ferramentas
da Europa para intervir no mercado petrolífero e abrandar os
receios dos investidores.
Os líderes europeus têm sido
Os preços dos combustíveis aumentaram em toda a Europa, especialmente o gasóleo.
Na China, os preços nas bombas de
combustíveis registaram a maior subida desde março
B&
de 2022.
O primeiro-ministro francês anunciou ações de fiscalização para impedir abusos pelas revendedoras.
questionados pelas associações do setor. Em Itália, o Governo de Giorgia Meloni já explicou que pretende introduzir um desconto sobre o imposto cobrado nos combustíveis, cujo valor certo e entrada em vigor está ainda pendente de uma reunião do conselho de ministros marcada para esta terça-feira. As projeções do diário Corriere della Sera antecipam que seja inferior a 10 cêntimos por litro. No caso português foi introduzido já esta segunda-feira um desconto "temporário" e "extraordinário" de 3,55 cêntimos no imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP) no gasóleo que subiu mais de 10 cêntimos. No caso da gasolina, como a subida não foi superior a esta fasquia, o desconto não se aplica. A Croácia também vai aplicar um desconto a partir desta terça-feira.
Em Espanha, na Alemanha e no Reino Unido, os Governos dizem estar a avaliar e prontos para intervir se o impacto se provar penalizador para as suas economias, mas ainda não explicaram como. Em França, o responsável do Executivo com a pasta da energia também diz que é "demasiado cedo" para agir, mas o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou no domingo 500 ações de fiscalização nos postos de combustível nos próximos três dias para evitar "aumentos de preço abusivos". A ação do departamento contra a fraude é o equivalente a seis meses do plano de controlo habitual.¦
Porque sobe o gasóleo mais do que a gasolina e o que isso pode causar
Dependência europeia de importações de diesel torna o mercado mais vulnerável à geopolítica e ajuda a explicar porque o gasóleo sobe mais do que a gasolina.
A subida mais acentuada do preço do gasóleo face à gasolina reflete um desequilíbrio estrutural no mercado europeu de combustíveis e a maior exposição do diesel a choques geopolíticos. Especialistas ouvidos pelo Negócios alertam que o fenómeno poderá ter efeitos na inflação, nos custos das empresas e no preço dos produtos, num contexto de instabilidade nos mercados energéticos.
Uma das razões prende-se com a estrutura do mercado europeu de combustíveis. "A Europa é praticamente autossuficiente em gasolina, mas é deficitária em gasóleo", explica António Comprido, secretário-geral da EPCOL-Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes. Isso significa que o continente não produz internamente diesel suficiente para o seu consumo e depende de importações, sobretudo do Médio Oriente, ficando mais exposto a perturbações no abastecimento.
A este fator junta-se um problema estrutural no sistema global de refinação. Segundo Agostinho Pereira de Miranda, advogado e presidente da associação ProPública Direito e Cidadania, existe um défice de capacidade para produzir gasóleo, agravado pela menor disponibilidade de certos tipos de crude mais adequados à produção de diesel.
66
Por cada 10 dólares de subida no preço do barril podemos ter um aumento de 0,4% da inflação. PEREIRA DE MIRANDA Presidente da ProPública Transportes e inflação sob pressão O peso do gasóleo na economia amplifica os efeitos da subida dos preços, uma vez que este combustível continua a dominar no transporte rodoviário e na logística. "A subida do gasóleo vai claramente influenciar o preço dos fretes e depois isso influencia o preço dos produtos que têm de ser transportados e distribuídos", afirma António Comprido.
Esse efeito em cadeia tende a refletir-se no preço final de bens e serviços, pressionando a inflação e os custos de produção das empresas. Pereira de Miranda alerta que a subida do petróleo pode traduzir-se num choque relevante para a economia.
"Com o preço do petróleo a subir 14% numa única sessão, é evidente que se trata pelo menos de um choque do lado da oferta muito significativo", afirma o advogado, acrescentando que "por cada 10 dólares no preço do barril podemos ter um aumento da inflação de cerca de 0,4%".
Cenário económico e social preocupante Se a escalada dos preços da energia se prolongar, o impacto poderá refletir-se rapidamente no custo de vida, pressionando o preço final dos bens e serviços e os orçamentos das famílias.
66
A Europa é quase autossuficiente em gasolina, mas deficitária em gasóleo.
ANTÓNIO COMPRIDO Secretário-geral da EPCOL Agostinho Pereira de Miranda alerta que a escalada dos custos da energia poderá rapidamente agravar as tensões sociais, afirmando que "este é um cenário desolador e potenciador de grande instabilidade social".
Também António Comprido reconhece a gravidade do momento. "Enfrentamos uma crise grave, talvez das crises mais graves que enfrentámos", afirma o secretário-geral da EPCOL.
Como mitigar a subida dos combustíveis?
A resposta pública à subida dos combustíveis tem passado sobretudo por medidas fiscais, como o desconto extraordinário no Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP), recentemente aplicado pelo Governo.
Segundo António Comprido, a componente fiscal é a principal alavanca disponível para mitigar o impacto das subidas nos mercados internacionais, embora estas medidas apenas consigam atenuar parcialmente o aumento dos preços.
Já o advogado Agostinho Pereira de Miranda considera que a resposta pode ir mais longe. "O que foi anunciado não tem nada de especialmente extraordinário, é mais do mesmo, é insuficiente", afirma.
O advogado refere que existem outros mecanismos previstos na legislação, como a limitação temporária das margens ao longo da cadeia de combustíveis, e admite que poderão ser necessários apoios mais robustos às empresas e às famílias, semelhantes aos adotados após o choque energético de 2022.
A nível internacional, uma das opções discutidas passa pela libertação de reservas estratégicas de petróleo. Ainda assim, os especialistas alertam que esse tipo de medida tende a ter impacto limitado e de curta duração nos mercados. ¦PVR
Transporte de passageiros vê custo disparar 5% e admite risco de vida
Escalada dos combustíveis associada ao conflito no Médio Oriente pressiona operadores de transporte rodoviário de passageiros, que dizem não ter margem para refletir o aumento nas tarifas e pedem apoios ao Governo. Sem medidas, admitem risco para a sobrevivência das empresas.
PATRÍCIA VICENTE RUA patriciarua@negocios.pt
A subida dos preços dos combustíveis, num contexto de crescente instabilidade geopolítica no Médio Oriente, já está a pressionar os custos das empresas de transporte rodoviário de passageiros em Portugal. O setor estima que o recente aumento do gasóleo represente um acréscimo mínimo de cerca de 5% nos custos operacionais das transportadoras.
O alerta é deixado pelo presidente da ANTROP, Luís Cabaço Martins, administrador do Grupo Barraqueiro, que sublinha que o impacto do combustível nas contas das empresas é imediato. "O impacto imediato nunca será inferior a um aumento de 5% dos custos operacionais", afirma o responsável.
O setor enfrenta, no entanto, uma particularidade que limita a capacidade de resposta. Ao contrário de outros setores, as empresas que asseguram transporte público rodoviário não conseguem repercutir diretamente os aumentos de custos nas tarifas pagas pelos passageiros.
As tarifas são definidas pelas autoridades públicas de transporte — como áreas metropolitanas e comunidades intermunicipais — no âmbito dos contratos de serviço público celebrados com os operadores.
Na prática, isto significa que, perante um choque de custos, as empresas ficam sem mecanismos imediatos para compensar o aumento das despesas com combustível.
"Se nada for feito, teremos de absorver esses custos", admite Luís Cabaço Martins, alertando, contudo, que as empresas não têm capacidade para suportar esta pressão durante um período prolongado.
Custos operacionais das empresas de autocarros aumentam pelo menos 5% fruto da subida do preço do gasóleo. Pedido de reunião urgente com o Governo Perante o agravamento da situação, a associação já solicitou uma reunião urgente ao Governo para discutir possíveis medidas de mitigação para o setor.
A ANTROP defende a criação de apoios financeiros extraordinários e transitórios que permitam às empresas absorver parte do aumento dos custos com combustíveis enquanto durar a atual volatilidade dos mercados energéticos.
Entre as soluções possíveis está o uso de instrumentos públicos já existentes, como o Fundo Ambiental, à semelhança do que aconteceu durante a pandemia, quando o setor recebeu apoios para compensar impactos operacionais.
"Estamos a falar de um setor que presta um serviço público essencial e que não tem qualquer mecanismo de defesa perante aumentos extraordinários de custos", sublinha o presidente da associação.
Serviço usado por milhões A ANTROP reúne 73 empresas de transporte rodoviário de passageiros, responsáveis por cerca de 20 mil postos de trabalho, incluindo aproximadamente 15 mil motoristas.
Entre os associados encontram-se alguns dos maiores operadores privados de autocarros em Portugal, como Barraqueiro Transportes, Rodoviária de Lisboa, Isidoro Duarte e a Rede Nacional de Expressos.
Estas empresas asseguram uma parte significativa da rede de transporte público rodoviário no país, operando linhas urbanas, interurbanas e regionais ao abrigo de contratos de serviço público.
Segundo dados do setor, cerca de 20% da população utiliza regularmente o transporte público rodoviário, o que corresponde a cerca de dois milhões de passageiros em Portugal.
Perante a escalada dos combustíveis, a associação admite que
66
Estamos a falar de um setor que presta um serviço público essencial e que não tem qualquer mecanismo de defesa perante aumentos extraordinários de custos.
No limite, se esta situação se prolongar e não houver medidas, as empresas poderão não ter condições de sobrevivência.
LUÍS CABAÇO MARTINS Presidente da ANTROP
o prolongamento da atual situação poderá colocar pressão adicional sobre a sustentabilidade financeira das empresas.
"No limite, se esta situação se prolongar e não houver medidas, as empresas poderão não ter condições de sobrevivência", alerta Luís Cabaço Martins, sublinhando a necessidade de uma resposta rápida das autoridades para evitar impactos num serviço essencial para a mobilidade das populações.¦¦
Volatilidade dos preços e custos de importação de fertilizantes preocupa
A associação do setor dos fertilizantes diz que a guerra não belisca o abastecimento em Portugal, mas pode haver impacto no preço.
O Médio Oriente figura como
um dos principais produtores
mundiais de fertilizantes e o estreito de Ormuz como uma rota crucial para as suas exportações, pelo que "qualquer perturbação logística, energética ou comercial na região tende a repercutir-se rapidamente nos mercados internacionais", mas "o impacto em Portugal não é necessariamente direto em termos de abastecimento imediato, porque importa fertilizantes de várias origens", mas "sendo muito dependente de importações, Portugal está inevitavelmente exposto às variações de preço e às tensões no comércio global".
É o que diz Tomás Roquette Tenreiro, consultor executivo da Associação Nacional de Produtores e Importadores de Fertilizantes (ANPIFERT), que faz parte da equipa da Agroges, num comentário ao Negócios sobre os efeitos do conflito.
Especialistas têm vindo a alertar que a cadeia de abastecimento global de fertilizantes pode vir a sofrer disrupções significativas, suscitando receios relativamente à produção agrícola e até ao nível da segurança alimentar, como reportado, na semana passada, pelo The Guardian, que apontou que entre um quarto e um terço do comércio global de matérias-primas para fertilizantes passa pelo estreito de Ormuz, ou pelo Financial Times, que deu conta de que os preços subiam de forma acentuada, quando ainda nem tinha passado uma semana do início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão.
"Os mercados de fertilizantes são altamente internacionais e reagem muito rapidamente a alterações geopolíticas ou energéticas a nível global", pelo que "movimentos como os que estão a ser observados no preço da ureia, do amoníaco ou do enxofre refletem essa sensibilidade", observa Tomás Roquette Ten
reiro. É que estes produtos - como explica - "funcionam frequentemente como referências para o mercado internacional, embora em Portugal existam outros tipos de fertilizantes mais utilizados e com maior peso no consumo nacional".
E, neste sentido, "é ainda cedo para avaliar plenamente o impacto destas variações em Portugal", aponta, admitindo, porém, que "é provável que se observe alguma pressão sobre os preços também no mercado português caso as tensões no Médio Oriente persistam”.
De momento - assegura o consultor - "não existem sinais de escassez física no mercado". "A principal preocupação prende-se sobretudo com a volatilidade dos preços e com o aumento dos custos de produção ou de importação, que podem agravar-se caso a instabilidade geopolítica se prolongue", sublinha.
"Outra questão que nos afeta indiretamente prende-se com as repercussões nos preços da energia, nomeadamente do gás natural", porque "é um fator determinante na produção de fertilizantes azotados e qualquer aumento significativo do seu preço poderá refletir-se nos custos de produção e, consequentemente, no preço final destes produtos", sustenta. ¦DM
66
É provável que se
observe pressão sobre os preços no mercado português caso as tensões persistam.
TOMÁS ROQUETTE TENREIRO Consultor da ANPIFERT
Jet-fuel mais caro faz desvalorizar obrigações da TAP
A escalada nos preços dos combustíveis está a levar os investidores a pedirem uma maior recompensa para deterem títulos de dívida.
Os juros das obrigações da TAP com maturidade em 2029, negociadas no mercado secundário, deram ontem o maior salto desde que a linha de dívida foi emitida. Esta segunda-feira, a "yield" chegou a avançar 31,9 pontos-base para 4,477%, o valor mais elevado desde meados de julho do ano passado, o que significa que o título em si desvalorizou. O valor unitário caiu 1,1 cêntimos para 10,18 euros.
No fim de outubro de 2024, a TAP avançou com a abertura desta linha, que contou com uma primeira emissão de 400 milhões de euros. Esta foi, posteriormente, reforçada em 200 milhões de euros cinco meses depois, com a companhia aérea a informar que tinha fixado uma taxa de juro até ao seu vencimento em 4,467%.
O movimento registado esta segunda-feira espelha o comportamento dos juros das obrigações com maturidade inferior a 10 anos da maioria das companhias aéreas europeias, numa altura em que a escalada nos preços do petróleo, motivada pelos efeitos da guerra no Médio Oriente, está a agravar os custos das viagens. A "yield" das obrigações da Lufthansa com término em 2029 registou um acréscimo de 11,6 pontos-base para 3,419%, enquanto os juros das obrigações da Air France-KLM com maturidade no mesmo ano aceleraram 28,3 pontos para 3,823%.
"O fator que pesa mais é, de longe, a subida nos preços dos jet-fuel. Com isto, as empresas têm de despender mais dinheiro, o que leva a um menor cash flow e a um aumento da perceção do risco dos investidores, embora este continue em níveis bastante baixos", explica Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, ao Negócios. A tendência de agravamento nos juros das obrigações não é exclusiva das companhias aéreas, mas abrange todos os negócios que estão dependentes da compra de combustíveis, como as empresas de cruzeiros.
Além disso, há ainda um efeito de "arrasto", diz Paulo Monteiro Rosa, por parte do disparo das "yields" soberanas na Europa e nos EUA. As perspetivas de um aumento da inflação, com o mundo às portas de uma nova crise energética, estão a levar os investidores a aumentarem as apostas de que o Banco Central Europeu (BCE) suba as taxas este ano. Para já, o mercado tem incorporado um aperto de 25 pontos-base em 2026, mas já está a considerar um possível segundo aumento, caso o conflito se prolongue.
A dívida pública portuguesa não tem escapado a este agravamento e, desde o estalar da guerra no Irão, a "yield" das obrigações nacionais a 10 anos já cresceu 33,8 pontos-base. Ontem acabou por avançar 0,4 pontos-base — depois de ter subido quase 7 pontos-base durante a sessão — para 3,285%. Já o petróleo, que na madrugada passada quase conseguiu tocar nos 120 dólares por barril, acabou por aliviar, negociando ao longo do dia em torno dos 100 dólares.
RICARDO JESUS SILVA
Matthew Michael: Ouro vai subir mais. Prata não é tão atrativa
Para o analista da Schroders, o ouro continuará resiliente, apesar da potencial volatilidade que vá encontrando. Já os níveis atuais da prata não devem ser sustentáveis a longo prazo. No reino dos metais industriais, é o cobre que comanda.
CARLA PEDRO cpedro@negocios.pt
Prever o preço de determinados ativos nos mercados é um difícil exercício de futurologia. Há sempre muitos fatores a ter em conta e imponderáveis de que ninguém se lembra — como cisnes negros que chegam, esvoaçam, sobrevoam e mudam todo o cenário. No caso das matérias-primas, e mais concretamente quando falamos de metais preciosos, o potencial rumo do ouro é sempre mais complexo de antecipar e isto devido a uma especificidade muito própria: funciona como uma moeda. Por isso mesmo, "o que vai impulsionar o seu preço, em última análise, é a procura”, sublinha Matthew Michael, analista de matérias-primas e de dívida dos mercados emergentes na Schroders.
E há vários tipos de procura. O preço do metal amarelo, que acumulou saldo positivo nos principais mercados nos últimos três anos, tem sido, por exemplo, impulsionado pela procura para armazenamento de riqueza, à medida que os investidores se desfazem de moedas fiduciárias — como dólares, euros, ienes —, bem como de ações e obrigações, diz o especialista da gestora de fundos em entrevista ao Negócios. Por isso mesmo, "definir um preço-alvo para o ouro é diferente de definir um 'target' para um alqueire de trigo ou um barril de petróleo, já que é um mercado muito pequeno".
Mas se "o seu mercado é relativamente pequeno em termos de produção anual, com cerca de 3.500 toneladas, já a sua acessibilidade através de 'exchange-traded funds' [ETF] e moedas aumentou significativamente", frisa o analista de "commodities". Ainda assim, "aumentar a oferta é um desafio", explica. E isto porque o ouro proveniente das minas, de sucata e das vendas de quem o detém é insuficiente para satisfazer a procura crescente. O exemplo recente demonstra bem essa dinâmica: "embora os investidores ocidentais tenham vendido ETF de ouro,
a forte procura da Ásia absorveu
essa oferta, impedindo um excedente no mercado”. Ou seja, "o que foi vendido no Ocidente foi comprado no Oriente".
Além disso, o metal amarelo registou uma rápida apreciação do preço, com um ganho de 65% no ano passado, "quebrando correlações históricas com o crescimento da oferta monetária", sublinha Matthew Michael. "Historicamente, seria de esperar que o ouro se valorizasse a uma taxa anualizada de cerca de 10%. Isto porque algumas pessoas tentam fazer uma comparação entre o aumento do preço do ouro e o crescimento da oferta monetária, dizendo que se mais dinheiro está a ser impresso a um ritmo de X, então o preço do ouro deve subir Y. Mas agora o que temos é uma clara quebra nesse padrão”.
Mesmo com as normais correções, Matthew Michael considera que este metal precioso vai continuar a valorizar em 2026. "A menos que algo impeça as compras, o preço continuará a subir", antecipa. "Os fundamentais subjacentes ao ouro permanecem sólidos, apesar da potencial volatilidade dos preços."
E se subir muito mais, poderemos entrar numa bolha? O analista não crê e apresenta uma "checklist" de resiliência do ouro contra esse tipo de fenómeno. O primeiro ponto diz respeito à "falta de confiança no sistema monetário" — como as preocupações com o confisco de ativos (aconteceu, por exemplo, com o congelamento de ativos russos) — às "tendências de desglobalização" e às "questões sobre a autonomia dos bancos centrais", que "impulsionam a procura por um ativo de reserva neutro".
Também a elevada liquidez global e as pressões inflacionistas persistentes aumentam a atratividade do ouro como reserva tangível de valor, e o mesmo acontece com a diversificação, já que este metal funciona como um importante diversificador de carteiras. E há o elemento geopolítico: "Os riscos geopolíticos estão atualmente subvalorizados nos mercados financeiros, reforçando ainda mais o papel do ouro como ativo de reserva, particularmente junto dos bancos centrais (a Polónia, por exemplo, tem como meta 30% de reservas em ouro) e dos mercados emergentes."
O ouro beneficia igualmente, segundo Matthew Michael, do "desempenho historicamente inferior dos títulos de dívida de longo prazo e dos baixos rendimentos reais em países com altos índices de dívida em relação ao PIB, tornando-o uma alternativa mais atrativa perante as obrigações do Tesouro".
No que diz respeito à "irmã mais nova do ouro" — que no ano passado registou uma subida em torno de 150%, ultrapassando os 120 dólares por onça —, o cenário é diferente. "A prata é geralmente menos favorecida do que o ouro", aponta o especialista, sublinhando que "os bancos centrais normalmente não mantêm reservas significativas de prata devido a desafios logísticos".
"A prata é altamente volátil, atraindo negociações especulativas por meio de ETF alavancados. No entanto, isso também a torna propensa a quedas acentuadas devido à tomada de mais-valias e às chamadas de margem, sem o apoio institucional do ouro", diz. Por outro lado, "os atuais altos níveis do preço não são considerados sustentáveis a longo prazo, com o ouro a continuar a apresentar um desempenho superior", considera.
Já o cobre é outra história, com a Schroders a apostar no bom desempenho deste metal industrial — que é um dos seus três "top picks" para este ano no reino das "commodities", ao lado do ouro e do petróleo.
"O cobre é altamente atrativo devido a uma combinação de forte atividade económica global e constituição de reservas estratégicas por vários países", salienta Matthew Michael. E isto numa altura em que enfrenta desafios de abastecimento: "O crescimento da oferta de cobre é dececionante. A abertura de novas minas é um processo intensivo em capital e que leva vários anos, levando as empresas mineiras a serem conservadoras com as despesas de capital, apesar da elevada procura."
O metal vermelho, tido como um barómetro da atividade económica, está a ser alvo de grande procura precisamente porque "o crescimento económico global continua resiliente" e "a procura é particularmente forte em setores críticos como a eletrónica, a inteligência artificial (centros de dados) e os cuidados de saúde, onde o cobre é uma componente essencial", frisa o especialista da gestora de fundos britânica. Além disso, remata, "a importância estratégica do cobre torna-o um recurso vital para a segurança nacional e a estabilidade económica, especialmente com potenciais perturbações comerciais”.¦¦
66
Aumentar a oferta de ouro é um desafio. O que provém das minas, sucata e vendas não é suficiente para satisfazer a procura crescente.
A prata é altamente volátil, atraindo negociações especulativas. Isso torna-a propensa a quedas acentuadas devido à tomada de mais-valias e às chamadas de margem.
O cobre está a ser alvo de grande procura porque o crescimento
económico global continua resiliente. Ao mesmo tempo, o crescimento da oferta é dececionante.
A produção de petróleo de xisto dos EUA a partir dos poços atuais está a aproximar-se do seu pico.
Extração de crude novo está a ficar mais cara.
As previsões foram subestimadas e a procura real de petróleo está a crescer mais do que o previsto.
MATTHEW MICHAEL Analista de matérias-primas na Schroders
Petróleo regressa à lista de compras da Schroders
A gestora de ativos voltou a colocar o crude no seu cabaz de compras, depois de cerca de um ano e meio de maior negativismo.
Os preços do petróleo têm estado a subir fortemente, com especial destaque para este mês, após a ofensiva desencadeada a 28 de fe
vereiro pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão e que não tem ainda fim à vista. Mas, mesmo antes desta escalada, já a Schroders o colocava entre os seus três "top picks" para 2026 — a par com o ouro e o cobre —, apesar de os últimos três anos terem sido de saldo negativo nos mercados, tanto no caso do Brent do Mar do Norte, referência para a Europa, como no do West Texas Intermediate, que é o "benchmark" dos EUA.
Assim, depois do ouro, o petróleo é a segunda "commodity" mais atrativa, este ano, para a gestora de ativos britânica. Em entrevista ao Negócios, Matthew Michael, analista de matérias-primas da Schroders, explica porquê, sublinhando que o sentimento mais otimista se deve, sobretudo, a uma "mudança de dinâmica". "Após um período de negativismo devido ao excesso de oferta, o mercado petrolífero registou uma inversão", aponta o especialista, que é também responsável pela análise da dívida nos mercados emergentes.
"Durante quase um ano e meio, mantivemos uma posição negativa em relação ao petróleo. E dado que é uma matéria-prima muito importante, não foi uma decisão fácil para um gestor de 'commodities' dizer 'certo, menos petróleo, e mais de outra coisa', mas considerámos que havia bastante oferta, tanto da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) como da América do Norte, além da produção flutuante ao largo do Gana e do Brasil, e também no Mar do Norte", explica. "Não eram quantidades enormes, mas, coletivamente, eram suficientes para inclinar o equilíbrio do petróleo para um excedente de um a dois milhões de barris por dia", justifica. Até que, "no segundo semestre do ano passado, algumas coisas mudaram no mercado do petróleo".
E o que tem levado a esta inversão de tendência, agora reforçada com a guerra no Médio Oriente? Um dos fatores, diz Matthew Michael, é o facto de "as previsões para a procura terem sido subestimadas, com a procura real de petróleo a crescer mais do que o previsto". Depois, há a questão da disciplina dos membros da OPEP. "Os países da OPEP realmente cumpriram as suas quotas [limitando a oferta], porque não têm capacidade de voltar a colocar no mercado todo o crude que estiveram a reter", frisa o especialista. "No final de contas, trata-se de quota de mercado."
Quem aproveitou para vender mais ouro negro enquanto a OPEP retinha a sua produção desde 2023, na tentativa de fazer subir os preços, foram os Estados Unidos. Mas isso poderá em breve mudar. "A produção de petróleo de xisto ['shale oil'] dos EUA a partir dos poços atuais está a aproximar-se do seu pico" e "a extração de petróleo novo está a tornar-se mais cara”. "Está a usar-se mais água e é preciso mais areia, mais camiões — e tudo isso encarece a extração".
"Não estou a dizer que os EUA não continuarão a ser um grande produtor de petróleo. Mas, se não decidirem investir quantias significativas de capital, então provavelmente não vamos assistir ao mesmo nível de crescimento da produção que observámos durante o 'boom' do 'shale oil'", aponta Matthew Michael. Portanto, acrescenta, "sabemos que a produção dos EUA provavelmente não crescerá ao mesmo ritmo".