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08 janeiro 2026 18h30
Fonte: CityWire

Responsável pela seleção de fundos revela prioridades para o novo ano

CityWire

Do crédito privado evergreen às "pás e picaretas” da inteligência artificial, Tiago Gaspar, responsável pela seleção de fundos do Banco Carregosa, revela à Selector que fundos procura.

Antes da pausa de Natal, o responsável pela seleção de fundos do Banco Carregosa, Tiago Gaspar (na foto), deu à Citywire Selector um vislumbre da sua lista de desejos em matéria de fundos – mesmo antes de esta ter sido enviada para o Pólo Norte.

A equipa de seleção da instituição, composta por três elementos, atua nas áreas de execução, custódia e advisory. Quando a Citywire falou com Gaspar, este encontrava-se, em conjunto com o diretor de investimentos Mario Carvalho Fernandes e o diretor de investimento Filipe Silva, a afinar a buylist da casa, composta por cerca de 200 fundos, para o ano seguinte.

Num contexto marcado por previsões sobre uma bolha da inteligência artificial e pela habitual consulta anual às "bolas de cristal” dos gestores de ativos, Gaspar explicou quais os temas que estão a subir ao topo dessa lista, tanto nos mercados públicos como privados.

Grandes nomes, não novos mundos corajosos, no crédito privado

Os investimentos alternativos — em particular o crédito privado — foram um tema estruturante para o banco português ao longo de 2025, e Gaspar não vê razões para abrandar. O entusiasmo crescente, sublinhou, está menos relacionado com retornos de manchete e mais com a estrutura.

A equipa tem-se tornado "mais interessada neste momento em crédito privado”, sobretudo através de veículos evergreen. Estes, defendeu Gaspar, são "mais adequados ao crédito privado do que ao private equity”, em grande parte porque as próprias maturidades dos empréstimos podem gerar liquidez.

Mesmo que o capital não seja reciclado ativamente, salientou: "Se o gestor tiver uma boa dispersão das maturidades, terá liquidez para transmitir aos clientes.”

Esta realidade contrasta com as fragilidades expostas em partes do imobiliário privado há alguns anos, quando as pressões de resgate colidiram com ativos de maturidade muito longa. "Se tivermos ativos de muito longo prazo, mesmo com este tipo de estrutura evergreen, é possível surgirem algumas tensões”, afirmou.

Mas a estrutura é apenas metade da equação. Gaspar mostra-se igualmente cauteloso face à rápida expansão do próprio universo de crédito privado. Com uma vaga de novos gestores a lançar primeiros ou segundos fundos — muitas vezes diretamente em formatos evergreen — a equipa optou por não ser early adopter.

"Não estamos investidos neles, porque sentimos que este mercado ainda não foi verdadeiramente testado por stress económico ou de mercado.”

Em alternativa, o Banco Carregosa continua a apostar em casas europeias estabelecidas, com reputações a defender. "Têm mais risco reputacional… é assim que temos jogado este jogo.”

Gaspar descreveu ainda um equilíbrio deliberado entre estratégias de direct lending mais simples e abordagens mais especializadas. A par da exposição a crédito core, os portefólios incluem fundos focados em soluções de capital, dívida distressed e financiamento ponte.

A lógica é clara: "Sabemos sempre que uma recessão vai chegar. Não sabemos quando… mas sabemos que, em momentos de grande deslocalização de mercado, queremos estar a trabalhar com casas de fundos muito profissionais no que fazem.”

Fora das apostas puras em IA

Nos mercados públicos, a tecnologia continua firmemente no radar — mas Gaspar desconfia de exposições demasiado estreitas ou frágeis. Em vez de perseguir estratégias puras de inteligência artificial, prefere aquilo a que chama uma abordagem de "pás e picaretas”.

Traçando um paralelo com a corrida ao ouro nos EUA do século XIX, o foco recai sobre as empresas que fornecem a infraestrutura por detrás do boom da IA. "Ganham desde o primeiro dia; quando uma empresa diz ‘quero construir um novo data center de IA’, são elas que fornecem os materiais.”

O apelo não reside apenas na durabilidade das receitas, mas também na tranquilidade. Esta abordagem, argumenta, permite exposição ao investimento tecnológico de longo prazo sem enfrentar a questão mais desconfortável de todas: o timing da saída.

"Se me focasse apenas em IA, teria de responder à pergunta: ‘Quando é o momento de sair?’”, afirmou. "Não quero colocar-me nessa situação frágil.”

Saúde, com vantagem científica

A área da saúde é outro foco de atenção. Gaspar reconheceu que o setor tem sido "bastante difícil” no último ano, mas apontou fundos especializados em biotecnologia, com longos históricos e elevada active share, como exemplos em que a especialização profunda pode fazer a diferença.

A biotecnologia, explicou, é um dos raros segmentos dos mercados onde "a vantagem competitiva é o conhecimento científico”. Destacou ainda a forma como a inteligência artificial está a ser cada vez mais utilizada para acelerar a descoberta e o desenvolvimento de medicamentos.

Apesar de mais voláteis, estas estratégias representam exemplos claros do tipo de gestão ativa diferenciada que atrai a sua equipa.

À procura de alpha nos mercados emergentes

Os mercados emergentes completam o quadro. Gaspar enquadra a oportunidade através dos ciclos cambiais, recordando que os ativos emergentes tendem historicamente a ter melhor desempenho quando o dólar norte-americano enfraquece.

Relaciona esta dinâmica com pressões macroeconómicas mais amplas, incluindo níveis elevados de dívida global e incentivos políticos para deixar que a inflação reduza o valor real das responsabilidades ao longo do tempo.

No entanto, a exposição passiva a índices não convence. O foco está em gestores ativos altamente seletivos, dispostos a olhar para além dos maiores mercados BRIC. A verdadeira oportunidade, disse à Selector, reside "nesses países satélite que gravitam em torno dos grandes mercados emergentes”, onde a ineficiência e a menor atenção dos investidores podem criar terreno fértil para gerar alpha.

"A razão pela qual falo de mercados emergentes”, concluiu, "é porque quando os investidores têm pouco apetite, quando o mercado é ineficiente e quando existe gestão ativa dedicada, é possível extrair um alpha muito interessante para além do beta.”

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