Sam Altman e MIT alertam para bolha na IA e assustam mercados
Sam Altman, CEO da OpenAI, tem vindo a assumir gradualmente uma posição crítica e, ao mesmo tempo, pragmática em relação ao atual entusiasmo em torno da inteligência artificial (IA). Ainda esta semana, Altman reconheceu que há uma exuberância irracional nos mercados acionistas, e os investidores estão, na sua opinião, demasiado entusiasmados com o potencial da tecnologia, tendo comparado os atuais níveis dos índices acionistas à bolha das dotcom e salientando que, tal como aconteceu no passado, "alguém vai perder uma quantidade fenomenal de dinheiro”. Para Altman, é inevitável que muitos investidores sofram perdas avultadas, resultado de expectativas desajustadas e apostas pouco fundamentadas.
Ainda assim, não descarta a lógica que está por trás desta febre e sublinha que, em todas as bolhas, existe sempre uma base real e promissora, mas que acaba inflacionada por expectativas irrealistas, criando uma bolha em torno dessa verdade inicial, ao ponto de até as pessoas mais inteligentes acabarem por exagerar no otimismo. No caso da IA, há um enorme potencial transformador da tecnologia. Altman considera que, embora se verifiquem perdas e correções dolorosas no curto prazo, a IA acabará por representar um ganho líquido significativo para a sociedade, capaz de alterar e impulsionar acentuadamente a economia e a forma como vivemos e trabalhamos. Ao mesmo tempo que alerta para os riscos, Altman reafirma uma aposta ambiciosa e quase sem precedentes, antevendo que a OpenAI invista milhares de milhões, ou mesmo biliões de dólares, em infraestruturas e data centers num futuro próximo. Defende que esta estratégia, longe de ser insensata, é essencial para sustentar os avanços necessários e tornar viáveis as aplicações mais exigentes da inteligência artificial.
Também o relatório do MIT (Massachusetts Institute of Technology), divulgado esta semana, analisou milhares de projetos de IA generativa desenvolvidos nos últimos anos em empresas de diferentes setores e chegou a uma conclusão preocupante: cerca de 95% desses projetos falharam em gerar valor económico ou retorno tangível. O estudo aponta várias causas para este insucesso generalizado. Em primeiro lugar, destaca a falta de integração da IA nos processos de negócio, já que muitas iniciativas foram tratadas como experiências isoladas, meros protótipos, sem ligação prática às operações da empresa. Em segundo lugar, identificou a ausência de objetivos claros e de métricas de sucesso bem definidas, levando a esforços dispersos e ineficazes. Outro fator apontado é a falta de competências internas, já que muitas organizações não possuíam equipas preparadas para adaptar e explorar devidamente a tecnologia.
Apenas 5% dos projetos obtiveram resultados positivos. Em regra, os casos de sucesso estão associados a startups ou equipas pequenas, altamente focadas na resolução de um problema específico, com capacidade de execução rigorosa e rapidez de adaptação. Estes projetos vitoriosos têm em comum o facto de a IA ter sido incorporada nos seus produtos ou serviços, tornando-se um elemento central da proposta de valor da empresa. Além disso, os melhores resultados surgiram quando as empresas optaram por parcerias, colaborando com outras entidades que lhes permitiram ampliar recursos e acelerar a integração da tecnologia.
O relatório também quantificou o esforço económico que esteve na base desta vaga de adoção da IA generativa, estimando que tenham sido investidos entre 35 e 40 mil milhões de dólares em projetos empresariais ligados à GenAI. Contudo, apenas uma fração muito pequena desse montante se traduziu em crescimento rápido de receitas ou em ganhos sustentáveis para as empresas. A maioria dos investimentos, pelo contrário, acabou por não gerar qualquer retorno, corroborando a discrepância entre as expectativas criadas e a realidade da implementação.
Em suma, Altman alerta para o risco de uma bolha especulativa, mas reafirma que a IA é uma tecnologia demasiado importante para ser desvalorizada e que os elevados investimentos da OpenAI são indispensáveis para que o setor atinja todo o seu potencial. Por sua vez, o MIT concluiu que a inteligência artificial generativa tem grande potencial, mas só será eficaz com foco, execução rigorosa e integração real nos negócios. Estas mensagens são um alerta para os mercados acionistas, sobretudo para o setor tecnológico, que negoceia com PER elevados e acima da média histórica, tendo reagido em baixa.
PAULO MONTEIRO ROSA Economista Sénior do Banco Carregosa