Secil cimenta valor da Semapa e pode render dividendo extra
A "holding" da família Queiroz Pereira vendeu o seu segundo maior ativo em termos de volume de negócios por 1,4 mil milhões de euros. O montante surpreendeu os investidores e as ações dispararam mais de 20%. Os analistas admitem que haja uma nova aquisição em vista, mas também que a empresa possa distribuir um dividendo extraordinário aos acionistas.
Após anunciar a venda da Secil à espanhola Cementos Molins, a Semapa chegou a disparar mais de 31% em bolsa. Foi a maior subida desde a entrada em bolsa da "holding" a 27 de julho de 1995, que os analistas atribuem ao montante a que a venda foi feita, superior à avaliação do ativo nas contas da empresa. Houve assim uma reavaliação em alta da Semapa, que poderá também distribuir um dividendo extraordinário aos acionistas.
"É um ativo que estava avaliado a um preço muito mais baixo do que foi possível concretizar”, diz Carlos Pinto, gestor sénior de investimentos da Optimize Investment Partners, ao Negócios. "Foi muito bem vendido. Houve uma cristalização de valor muito acima do que era estimado”, sublinha, referindo que há várias possibilidades sobre o que vão fazer. "A prioridade será aplicar noutro tipo de ativos para reforçar portefólio, mas acharia normal que distribuíssem um dividendo extraordinário”, aponta.
Foi muito bem vendido. Houve uma cristalização de valor muito acima do que era estimado.
Carlos Pinto, gestor sénior de investimentos da Optimize Investment Partners
Em causa está a assinatura de um acordo vinculativo para a venda de 100% do capital social da Secil à Cementos Molins por 1,4 mil milhões de euros. A produtora de cimento é a segunda maior participada da Semapa em volume de negócios, marcando presença em oito países e contando com oito fábricas de produção, três das quais em Portugal: Outão, Maceiras e Pataias. Fundada em 1930, a Secil tem uma capacidade anual de produção de 10 milhões de toneladas de cimento e emprega 2.900 pessoas.
"A venda da participação da Semapa na Secil à espanhola Molins representa um negócio claramente positivo para a 'holding' portuguesa”, concorda Diogo Telhado, analista da Sixty Degrees. "A Secil, apesar de relevante, era apenas um dos ativos do portefólio da Semapa e apresentava sinergias limitadas com as restantes participadas do grupo. Neste contexto, a obtenção de um preço elevado foi, por si só, condição suficiente para que a operação fosse bem recebida pelo mercado.”
Após o disparo de mais de 30%, a ação acabou por fechar a sessão com uma valorização de 20,88% para 20,55 euros por ação. A variação representa uma subida de 289 milhões de euros na capitalização de mercado da empresa, que se situa agora nos 1,67 mil milhões.
A Secil, apesar de relevante, era apenas um dos ativos do portefólio da Semapa e apresentava sinergias limitadas com as restantes participadas do grupo.
Diogo Telhado, analista da Sixty Degrees
A avaliação implícita da Secil na transação situa-se cerca de 66% acima da valorização que era atribuída a este ativo nas contas da Semapa, o que a Sixty Degrees considera que justifica aproximadamente 15% de subida na cotação. "Os restantes cerca de 5% de valorização observados na ação da Semapa parecem estar associados a dois fatores adicionais”, explica Diogo Telhado.
Em primeiro lugar está a redução do "holding discount”, ou seja, ao alienar um ativo não-"core" e transformar valor ilíquido em caixa, a estrutura da Semapa torna-se mais simples e transparente, o que tende a diminuir o desconto face ao valor dos ativos. Em segundo lugar, está a expectativa de um possível aumento do dividendo.
"Os fundos resultantes da venda ainda não foram alocados e o mercado antecipa que parte desse montante possa vir a ser distribuída aos acionistas. Alternativamente, existe também a possibilidade de a Semapa estar a preparar uma nova aquisição ainda não divulgada, o que sugere que a troca da Secil por esta nova e ainda desconhecida empresa poderá trazer valor adicional”, remata o analista.
A desalavancagem do balanço e o reforço da posição de tesouraria aumentam a capacidade de gerar retornos sustentáveis para o acionista.
João Queiroz, "head of trading" do Banco Carregosa
Da mesma forma, João Queiroz, "head of trading” do Banco Carregosa, considera que a reação resulta, essencialmente, da criação imediata de valor e da nova leitura que pode ser feita ao balanço da cotada. Sobre o futuro, diz que "o impacto esperado é positivo, benigno e estruturalmente favorável, embora dependente da execução estratégica”.
"A desalavancagem do balanço e o reforço da posição de tesouraria aumentam a capacidade de gerar retornos sustentáveis para o acionista, quer via dividendos extraordinários, programas de ‘buybacks’ ou crescimento do dividendo recorrente. Em paralelo, a flexibilidade financeira permite investir em ativos com maior retorno ajustado ao risco, potenciando criação de valor futura. O equilíbrio entre remuneração ao acionista e reinvestimento disciplinado e virtuoso será determinante”, acrescenta.