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22 dezembro 2025 16h35

Secil: Semapa tem margem para dividendo extraordinário mas não deve ser prioridade, dizem analistas

Jornal Económico

O presidente da Maxyield e o head of trading do Banco Carregosa consideram, em declarações ao JE, que a mais valia gerada pela venda da Secil dá condições para que a Semapa pague um dividendo extra aos investidores. Contudo João Queiroz considera que essa não deve ser a prioridade e que o foco deveria ser a eficiência. financeira.


A Semapa está a estimar, em 2026, uma mais valia de 400 milhões de euros com a venda da totalidade da Secil à espanhola Cementos Molins, conforme comunicado pela cotada no índice português PSI à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) na passada sexta-feira.


Com este encaixe a empresa teria margem para pagar um eventual dividendo extraordinário aos seus acionistas caso assim o entendesse, referem os analistas consultados pelo Jornal Económico (JE). Mas fica também um alerta: o dividendo "não deveria constituir” a primeira prioridade devendo-se privilegiar a eficiência financeira.


Na sexta-feira, a Semapa confirmou à CMVM a existência de um acordo vinculativo para venda da totalidade do capital social que detém na Secil à Cementos Molins. "O valor da transação acordado representa um Enterprise Value [termo que se refere ao valor total de uma empresa] de 1,4 mil milhões de euros ", salientou a Semapa.


Devido a esta negócio a Semapa disparou, na sexta-feira, mais de 20% em bolsa .


"O fecho desta operação está previsto ocorrer no primeiro trimestre de 2026, estando sujeito às condições habituais para este tipo de operações”, adiantou a Semapa, na sexta-feira.


Analista considera que Semapa tem condições para pagar dividendo extraordinário


O presidente da Maxyield, Carlos Rodrigues, considera que a mais valia gerada pela venda da Secil dá "capacidade” à Semapa para a distribuição de um dividendo [extraordinário] aos seus accionistas, contudo isso vai depender da decisão da estrutura acionista onde a família Queiroz é largamente maioritária.


Tendo isto em consideração, Carlos Rodrigues lembra também que a Semapa tem sido "muito conservadora” no que diz respeito à distribuição de dividendos. O presidente da Maxyield salienta que nos últimos quatro anos o seu payout [quantidade do lucro que é pago em dividendo] tem sido "estável em volta dos 20%”.


Venda terá impacto na Navigator


Carlos Rodrigues assinala também que a venda da Secil, pela Semapa, terá também consequência na Navigator, empresa na qual a Semapa também tem participação.


Carlos Rodrigues lembra que pelo menos nos últimos dois anos a Navigator tinha avançado com um pagamento intercalar de dividendo. A prática poderá agora ser interrompida, ou então sofrer uma alteração, devido à venda da Secil, alerta o presidente da Maxyield.


O presidente da Maxyield refere que este dividendo intercalar que vinha sendo pago pela Navigator era uma forma de obtenção de capital pela Semapa, tendo em conta que a empresa detém 75% da Navigator.


Carlos Rodrigues salientou que no ano passado o pagamento desse dividendo intercalar foi comunicado em dezembro e efetivamente pago em janeiro de 2025, mas que até momento não existe qualquer tipo de confirmação de que esta medida venha a ser novamente tomada durante este ano.


Com a venda da Secil, e a consequente mais valia que será encaixada pela Semapa, Carlos Rodrigues traça dois possíveis cenários. Um deles é que a Navigator "empurre mais para a frente” o pagamento desse dividendo intercalar. Na prática o pagamento poder-se-ia processar depois de janeiro. O outro cenário passaria por esse dividendo intercalar não ser pago.


Analista diz que dividendo extraordinário não deve ser prioridade


O head of trading do Banco Carregosa, João Queiroz, considera que face à mais valia gerada pela venda da Secil "deverá existir espaço financeiro” para um eventual pagamento de um dividendo extraordinário aos accionistas da Semapa.


Contudo João Queiroz considera que o dividendo "não deveria constituir” a primeira prioridade após a alienação da Secil, "pelo menos de uma forma automática”.


Para João Queiroz a mais-valia obtida com o produto da venda da Secil cria, antes de mais, "margem para reduzir” o stock de dívida da Semapa, o que "melhora o perfil de risco, reduz encargos financeiros e aumenta a flexibilidade estratégica” num contexto de custo de capital ainda elevado.


"Em paralelo, existe racional para reinvestimento seletivo e realocação intra-grupo , direcionando capital para áreas e segmentos com maior eficiência na geração de retorno ajustado ao risco, seja por reforço de ativos " core ”, otimização operacional ou captura de sinergias que elevem o ROIC estrutural (sigla para retorno sobre o capital investido na tradução portuguesa)”, afirma o head of trading do Banco Carregosa.


João Queiroz considera que apenas após a re-estabilização do balanço e clarificada a melhor afetação do capital "é que teria racional” incrementar a remuneração do acionista, seja pela via do dividendo extraordinário ou pela recompra de ações próprias. "Essa abordagem auxiliaria a preservar disciplina financeira, evitar decisões pró-cíclicas e maximizaria a criação de valor no médio prazo, ao invés de privilegiar um retorno imediato”, defende o head of trading do Banco Carregosa.


"Existe um padrão recorrente na gestão de capital de grandes cotadas: primeiro otimiza-se o balanço através da rotação de ativos, depois reforça-se a remuneração aos acionistas”, explica João Queiroz. "A lógica é sequencial, não simultânea”, assinala o head of trading do Banco Carregosa.


"A Galp Energia vendeu ativos não-core em " upstream ” (não se refere aos projetos estratégicos como Namíbia) e reduziu alavancagem antes de aumentar dividendos. A EDP seguiu o mesmo caminho: rotação de ativos para desalavancar, só depois elevou distribuições. Siemens, BP, Vivendi e Engie combinaram desinvestimentos com recompras e escalada gradual da remuneração, mas sempre nesta ordem: Balanço primeiro, " shareholder return ( retorno ao accionista ) ” depois”, exemplifica João Queiroz.


Face a esta explicação o head of trading do Banco Carregosa sublinha que capital mal alocado ou estruturas sobreendividadas "destroem valor”. João Queiroz reforça que só após "restabelecer” eficiência financeira fará sentido devolver " cash ( dinheiro ) ” aos acionistas de forma sustentável.


"No caso Semapa, qualquer melhoria na política de dividendos será consequência natural de uma alocação disciplinada do capital — e não o ponto de partida. Neste tema a sequência pode ser importante”, diz João Queiroz. 

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