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19 setembro 2025 00h30

Setembro atípico com corte de juros e impulso da Oracle

Vida Económica

Setembro é, historicamente, o mês com o desempenho mais fraco para o S&P 500, com médias negativas desde que este índice acionista foi criado em 1957. É um período normalmente marcado por vendas sazonais, rebalanceamentos e menor liquidez após o verão. Além disso, quando no passado houve descidas das taxas de juro pela Reserva Federal dos EUA em setembro, esses cortes foram quase sempre agressivos — 50 ou 75 pontos base — e associados a recessões económicas, medos instalados (11 de setembro) e crises financeiras, como em 2001, 2007 ou 2008. Nessas situações, longe de apoiarem o mercado, os cortes acabaram por ser interpretados como sinais de alarme e as bolsas acabaram por recuar.


Em 2025, o cenário é diferente. O S&P 500 recuperou dos 3800 pontos em abril para 6600 em setembro, uma valorização impressionante de mais de 70%. Apesar da tradicional sazonalidade negativa, o índice regista ganhos em setembro, contrariando a tendência histórica. A explicação pode estar na dimensão do corte esperado, ou seja, a Fed deverá anunciar apenas 25 pontos base, não como resposta desesperada, mas como gesto de confiança e de gestão cuidada do ciclo económico. Trata-se, portanto, de um ‘corte de calma’, lido pelos investidores como sinal de estabilidade e de apoio, em vez de pânico.


Nos EUA, o ano fiscal vai de 1 de outubro a 30 de setembro, pelo que este é o último mês da execução orçamental. É frequente, nesta altura, o governo registar receitas fiscais elevadas e, por vezes, até excedentes orçamentais, já que empresas e instituições ajustam contas e liquidam obrigações antes do fecho do exercício. A liquidez para compras no S&P 500 tende, assim, a abrandar em setembro, porque este é efetivamente um mês de forte cobrança de impostos, corroborado, mais uma vez, pelo excedente esperado neste mês de setembro de 2025 — uma exceção face aos défices orçamentais, alguns bastante elevados, na maioria dos restantes meses do ano. Todavia, os contribuintes individuais pagam sobretudo em abril e no verão. Também setembro coincide com o regresso às aulas, altura em que as famílias enfrentam despesas acrescidas com educação (universidades, material escolar) e muitas vezes vendem em bolsa para libertar liquidez. Assim, setembro tem razões estruturais e comportamentais que explicam porque é em média o mês mais fraco nas bolsas.


Essa diferença em 2025 sente-se também ao nível das empresas, e a Oracle é um dos casos mais evidentes, valorizando mesmo após lucros mais fracos do que o esperado. A Oracle publicou lucros trimestrais ligeiramente abaixo das expectativas no passado dia 9 de setembro, mas as fortes perspetivas no negócio em nuvem (cloud) e inteligência artificial impulsionaram acentuadamente a cotação da ação. A empresa reviu em alta as previsões de crescimento, anunciou contratos relevantes que elevaram a carteira de encomendas (backlog) em 359%, para 455 mil milhões de dólares, e revelou novos planos de investimento para responder à procura crescente da IA.


Parte deste entusiasmo e maior investimento reflete também o efeitoriqueza associado aos máximos históricos do principal índice acionista norteamericano (S&P 500), com investidores e clientes a alargarem compromissos num ambiente amplamente positivo, o que pode estar a inflacionar as atuais expectativas. Embora essa carteira traduza contratos plurianuais já assinados, a sua concretização dependerá da execução ao longo dos próximos anos e da evolução do ciclo económico. Ainda assim, reforça a perceção de que a Oracle está bem posicionada para aproveitar este novo ciclo tecnológico, mas qualquer crise financeira ou recessão pode travar este ímpeto, além de que a tecnologia é deflacionista e os preços tendem a descer à medida que esta se vai democratizando.


A verdade é que, apesar dos lucros mais fracos da Oracle e da pressão sobre as suas margens, o mercado focou-se sobretudo nas perspetivas de médio prazo, entusiasmado também com o corte das taxas de juro pela Fed. A cotação da Oracle subiu de 218 dólares no início de setembro para 305 dólares atualmente, o que representa um aumento da capitalização bolsista de 250 mil milhões de dólares, contribuindo, só a Oracle, para uma valorização de quase 0,5% do S&P 500 este mês. Ou seja, de forma impressionante, a Oracle justifica cerca de um quinto da subida acumulada de 2,35% do índice em setembro, até este momento, apesar dos seus lucros mais fracos. A Oracle representa hoje 1,46% do S&P 500, sendo já a décima primeira empresa com maior peso no principal índice americano.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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