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10 agosto 2026 06h50
Fonte: ECO

Sonae ‘come’ ganhos em bolsa, mas Jerónimo Martins gera apetite

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Notícia originalmente publicada em: https://eco.sapo.pt/2026/08/10/sonae-come-ganhos-em-bolsa-mas-jeronimo-martins-gera-apetite/

 

Estão feitas as contas aos resultados do retalho na bolsa de Lisboa. Num momento em que está quase fechada a "earnings season” do semestre, Sonae e Jerónimo Martins mostraram ambas os números da atividade no passado dia 29 de julho. Enquanto a dona do Continente apresentou mais um conjunto de resultados robusto, a beneficiar da procura doméstica, a empresa que detém o Pingo Doce reconheceu um semestre "bastante mais exigente do que o esperado”, com a polaca Biedronka a debater-se com um ambiente de deflação no país. À imagem dos resultados, também o desempenho bolsista indica direções divergentes, com a Sonae a brilhar e a Jerónimo "sob pressão”. Mas os analistas deixam uma mensagem positiva para o futuro.

 

Depois de terem escalado mais de 76% em 2025, as ações da Sonae, que fixaram máximos históricos em julho, continuam a destacar-se com uma valorização anual próxima de 26%, suportada pela forte performance operacional da empresa da Maia. Já a Jerónimo Martins tem sentido o impacto da desaceleração na Polónia, com os investidores a castigarem a empresa, que desce quase 14% em 2026. Apesar de as ações de ambas as empresas não terem registado fortes oscilações após o reporte das contas, os resultados têm sido e deverão continuar a ser o principal motor das ações.

 

Para João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa, "a Sonae beneficia atualmente de uma narrativa mais favorável aos investidores, assente na diversificação, na redução da alavancagem financeira, no crescimento dos resultados e na existência de ativos cujo valor implícito ainda não parece totalmente refletido na cotação”, ao passo que a "Jerónimo Martins continua fortemente dependente da evolução da Biedronka, que representa a maior fatia das receitas do grupo”.

 

Num ambiente que continua a ser marcado por uma forte concorrência, as duas maiores empresas de distribuição nacionais conseguiram aumentar as suas vendas, suportadas pelas promoções. No caso da dona do Continente, que reforçou a liderança, as receitas superaram os 5,6 mil milhões de euros, com a CEO Cláudia Azevedo a notar "novamente excelentes resultados” do retalho alimentar, que viu o volume de negócios crescer 6,8% no primeiro semestre, para 3,5 mil milhões de euros, sustentado pelo contínuo crescimento dos volumes. No global, a MC, que junta o retalho alimentar, saúde, beleza e bem-estar, registou um volume de negócios atingiu 4,4 mil milhões de euros, o que representa aumento de 7,9% face ao período homólogo.

 

O grupo liderado por Pedro Soares dos Santos registou uma subida de 5,1% nas vendas, para 18,2 mil milhões de euros, com as vendas do Pingo Doce a crescerem 5,3% para 2,7 mil milhões de euros, com o Like For Like (LFL) – sem efeitos de abertura/fecho de lojas – nos 3,7%. Na Polónia, a forte queda da inflação alimentar, a partir de setembro de 2025, levou a Biedronka – que é o maior negócio do grupo – a operar com uma "enorme pressão” da deflação no cabaz. Nos últimos seis meses, as vendas cresceram apenas 1,7%, para 12,6 mil milhões de euros.

 

Os analistas aplaudiram os resultados apresentados pela Sonae, destacando o crescimento dos vários negócios do grupo, desde o retalho, à beleza, passando pela eletrónica e pela Musti, nos cuidados animais. Já a Jerónimo Martins teve uma reação menos favorável, com a Morgan Stanley a descer a avaliação para as ações da empresa de 15,5 euros para 15,10 euros, após a divulgação das contas.

 

> A Sonae apresentou um conjunto de números positivos, essencialmente suportados na Sonae MC, que mantém um desempenho quase sem críticas a apontar, beneficiando muito da fórmula atual de crescimento do país, mais pessoas, mais consumo. Ou seja, alavancando numa economia fortemente orientada para a procura doméstica, salários a crescerem francamente acima da inflação e população empregada a crescer num ritmo ainda elevado, acima dos 2%.

 

"A Sonae apresentou um conjunto de números positivos, essencialmente suportados na Sonae MC, que mantém um desempenho quase sem críticas a apontar”, reconhece António Seladas, fundador da AS Independent Research, que avalia as ações da empresa com um "target” de 1,85 euros e uma recomendação "neutral”. O especialista acrescenta que a empresa da família Azevedo tem beneficiado "muito da fórmula atual de crescimento do país, mais pessoas, mais consumo. Ou seja, alavancando numa economia fortemente orientada para a procura doméstica, salários a crescerem francamente acima da inflação e população empregada a crescer num ritmo ainda elevado, acima dos 2%”. Por outro lado, "a decisão, há uns anos, de abrir lojas no formato de maior proximidade, em zonas densamente povoadas que cresceram muito com a imigração e turismo revelou-se decisiva”.

 

No que diz respeito à dona do Pingo Doce, António Seladas, que manda "comprar” a empresa e avalia os títulos com um preço-alvo de 20,90 euros, diz que "a JM está sob pressão, porque o seu principal mercado, no retalho alimentar, Polónia está a sofrer com um ajustamento forte dos preços no alimentar, concretamente deflação alimentar (cabaz alimentar na Polónia com queda nos preços)”. "Ainda assim, [a empresa fechou o semestre] com um desempenho extraordinário ao nível dos volumes, mantendo ou ganhando quota de mercado num nível absolutamente elevado", sustenta.

 

"Em resumo, a Sonae MC foi, sem dúvida, uma das empresas portuguesas que mais beneficiou do desempenho macro dos últimos anos, concretamente mais pessoas (Imigração e Turismo), mais consumo”, afirma o analista, destacando que "aparentemente, neste momento existe algum abrandamento nesta dinâmica, a imigração dever-se-á ressentir com a postura menos favorável das autoridades e o crescimento do turismo está a abrandar” e, "se assim for, a dinâmica de vendas, que foi inesperadamente forte nos últimos anos e particularmente nos últimos 12 meses, deverá ressentir-se”.

 

Já a Jerónimo Martins "regista uma dinâmica, quase oposta, na Polónia, tem sofrido, este ano e 4º Trimestre de 2025, de uma forma inesperada, com a deflação no retalho alimentar, aparentemente, essencialmente, justificada, devido ao excesso de aumentos de preços no passado que agora ajustam”. "Este fenómeno, deflação, dever-se-á manter intenso no próximo trimestre e perder intensidade no 4º trimestre de 2026 e 1º trimestre de 2027. Ou seja, um efeito base muito favorável, particularmente a partir do 2º Trimestre 2027", antecipa.

 

João Queiroz, Head of Trading do Banco Carregosa, faz um "balanço global é positivo para ambas as empresas, mas por vias diferentes. A Sonae apresentou crescimento robusto nas vendas, melhoria das margens, forte aumento dos resultados líquidos e reforço da solidez financeira, beneficiando da diversificação do portefólio entre retalho alimentar, eletrónica, telecomunicações, imobiliário e cuidados para animais”. Já a Jerónimo Martins, destaca, "demonstrou elevada resiliência num contexto mais desafiante, marcado pela deflação alimentar na Polónia, principal mercado do grupo. Apesar da pressão sobre preços, conseguiu aumentar vendas, EBITDA e margem operacional, sustentada pelo crescimento de volumes, disciplina operacional e forte competitividade comercial”, explica.

 

> A Sonae destacou-se pela aceleração do crescimento e criação de valor transversal à carteira de ativos e de insígnias, enquanto a Jerónimo Martins evidenciou capacidade de defender rentabilidade num contexto operacional consideravelmente mais exigente.

 

"Em síntese, a Sonae destacou-se pela aceleração do crescimento e criação de valor transversal à carteira de ativos e de insígnias, enquanto a Jerónimo Martins evidenciou capacidade de defender rentabilidade num contexto operacional consideravelmente mais exigente”, conseguindo aumentar volumes e melhorar margens na Polónia, apesar da forte deflação alimentar na Polónia. "Este é um resultado particularmente relevante porque demonstra que o grupo conseguiu preservar a sua liderança comercial sem sacrificar de forma significativa a rentabilidade”, defende.

 

Após um período de fortes ganhos, a Sonae surge com menor potencial de subida face às avaliações dos analistas, enquanto a Jerónimo Martins surge com uma margem de progressão superior a 30% face aos preços-alvo dos bancos de investimento.

 

Os sete analistas que acompanham a companhia liderada por Cláudia de Azevedo avaliam os títulos da empresa com um target de 2,24 euros, o que confere um potencial de subida de 10,6% face ao valor de fecho de sexta-feira. Já os 26 analistas que seguem a empresa da família Soares dos Santos têm um preço-alvo médio de 23,04 euros para a companhia, uma avaliação que confere um potencial de cerca de 32% às ações da dona do Pingo Doce.

 

"Em termos prospetivos, a Sonae parece reunir condições para continuar a beneficiar do crescimento dos resultados e da reavaliação dos seus ativos, enquanto a Jerónimo Martins poderá depender mais da normalização da dinâmica de preços na Polónia e da capacidade de transformar crescimento de volumes em crescimento de resultados”, antecipa João Queiroz. "Em ambos os casos, a qualidade operacional permanece elevada, mas o mercado tende atualmente a atribuir um prémio superior à visibilidade e diversificação oferecidas pela Sonae", conclui.

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