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07 março 2025 01h15

Trump já não mede o seu sucesso pela bolsa? É o fim da ‘Trump Put’?

Trump já não mede o seu sucesso pela bolsa? É o fim da ‘Trump Put’?

A economia dos EUA cresceu quase 3% em 2024, e a eleição de Trump, em novembro, parecia reforçar as expectativas de um crescimento ainda mais forte em 2025, antecipado nos últimos meses pela valorização de 8% do S&P 500, de 5700 para 6130 pontos, apesar das elevadas valuations. No entanto, nas últimas duas semanas, os indicadores macroeconómicos começaram a enfraquecer. Até recentemente, o desempenho do mercado e da economia pareciam afastar os receios crescentes com a inflação, que tem acelerado nos últimos quatro meses, e tem sido ainda mais intensificada pelos potenciais impactos inflacionistas das tarifas comerciais de Trump. Entretanto, os lucros das empresas americanas no quarto trimestre mostraram-se relativamente sólidos, ajudando a sustentar as elevadas valorizações das ações. O S&P 500 registou um crescimento de 10% nos lucros e 5% nas receitas, fatores que justificaram em parte a resiliência do mercado. No entanto, esse cenário favorável pode estar a enfraquecer. Os dados económicos nos EUA começaram a mostrar sinais de abrandamento, tendo-se refletido na queda dos rendimentos das Obrigações do Tesouro dos EUA a 10 anos, de 4,8% no início de janeiro para 4,2%, mesmo com a inflação a manter-se resiliente e em relativa trajetória ascendente. Evidências adicionais desse abrandamento económico têm sido igualmente refletidas pelo Índice de Surpresa Económica do CitiGroup, reforçando os sinais de que a economia dos EUA poderá estar a perder força.


As estimativas de lucros para o S&P 500 em 2025 e 2026 caíram durante a época de resultados, indicando um enfraquecimento das perspetivas. Se as bases fundamentais do mercado continuarem a enfraquecer, será que os investidores manterão o seu otimismo face aos anúncios de política e à crescente incerteza? Com o aumento do risco político, a desaceleração económica, a perda de momentum e a pressão sobre os lucros, é provável que o mercado continue pressionado por mais tempo. No entanto, uma eventual fraqueza do mercado pode trazer um fator positivo, a ‘Trump Put’. Este conceito tem origem na conhecida ‘Fed Put’, ou seja, o banco central dos EUA (Fed) intervém para evitar quedas acentuadas na economia ou nos mercados financeiros, sobretudo acionistas, através de estímulos financeiros. Termos como ‘Greenspan Put’, ‘Bernanke Put’ ou ‘Powell Put’ adaptam essa lógica aos presidentes da Fed de cada época. O termo ‘put’ vem do mercado de opções, onde uma opção put funciona como um seguro contra perdas. No contexto atual, acredita-se que, caso os mercados caiam demasiado, a administração Trump poderá intervir para evitar danos maiores, tal como a Fed fez no passado. Mas será mesmo assim?


A política tarifária de Donald Trump tem provocado instabilidade nos mercados financeiros dos EUA. Embora o presidente tenha historicamente utilizado o mercado de ações como indicador do seu sucesso, na semana passada Trump permaneceu em silêncio apesar de as bolsas terem registado a pior queda em dois dias desde dezembro. No entanto, declarações otimistas do Secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmando que as tarifas não prejudicarão os consumidores norte-americanos, trouxeram algum alívio. Outro sinal de possível flexibilização surgiu quando o Secretário do Comércio, Howard Lutnick, sugeriu que poderia haver um alívio nas tarifas para o México e o Canadá. Os investidores reagiram rapidamente a essa possibilidade, resultando numa recuperação pontual do mercado. No entanto, a administração Trump tem enviado sinais contraditórios sobre a sua política comercial, tornando difícil prever se haverá uma verdadeira mudança de rumo. A ‘Trump Put’ poderia ajustar as políticas económicas para conter um declínio excessivo no mercado acionista. Até que ponto o S&P 500 pode cair antes de Trump intervir? Esse nível crítico corresponderá ao fecho do S&P 500 no dia da eleição? Ou não haverá realmente uma ‘Trump Put’?


Outro fator que gera incerteza é o eventual menor foco de Trump na bolsa em comparação com o seu primeiro mandato. Durante os seus primeiros quatro anos, Trump mencionou o mercado de ações 156 vezes no Twitter, mas, agora, neste segundo mandato, mencionou apenas uma vez desde novembro, o que torna mais difícil prever as suas intenções. Uma queda mais acentuada do S&P 500 poderá, então, ativar a ‘Trump Put’, ou seja, o suporte do presidente dos EUA à bolsa? A média móvel de 200 dias (MA200) atua como suporte, assim como o máximo de junho, nos 5667 pontos, o número redondo de 5500, o mínimo de setembro, nos 5408, ou, ainda, o mínimo de agosto, nos 5186 pontos. Uma das últimas defesas, a média móvel de 200 semanas, nos 4700 pontos, poderia também forçar Trump a mudar de postura e tornar-se proativo quanto ao mercado acionista? Enquanto isso, os mercados podem continuar voláteis, com investidores cautelosos.


Paulo Monteiro Rosa, Economista Sénior do Banco Carregosa

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