Vai o gasóleo voltar a ficar mais caro do que a gasolina?
Desde o início do conflito no Médio Oriente, no passado dia 28 de fevereiro, os receios de escassez de petróleo, sobretudo perante a possibilidade de bloqueio do estreito de Ormuz, impulsionaram os preços dos combustíveis fósseis, em particular do petróleo e do gás natural.
A volatilidade implícita (OVX, o chamado Oil VIX) associada ao petróleo norte-americano WTI de Nova Iorque, medida através do mercado de opções sobre petróleo nos EUA, atingiu níveis muito acima dos registados durante a crise energética de 2022, alcançando valores semelhantes aos de abril de 2020, quando a cotação do petróleo nos EUA chegou a negociar em terreno negativo devido às dificuldades de armazenamento no ponto de entrega de Cushing, no Oklahoma, uma região interior (landlocked) localizada a cerca de 1000 km da costa e que, por isso, sofre frequentemente de excesso de petróleo armazenado.
O índice OVX mede precisamente a volatilidade implícita das opções sobre o United States Oil Fund (o ETF USO), funcionando como o principal barómetro de risco e incerteza associado à evolução do preço do petróleo WTI norte-americano. Assim, a forte subida do OVX index na primeira metade de março foi acompanhada por um aumento significativo das margens de refinação do gasóleo (Gasoil Crack Spread) nos mercados internacionais, sobretudo da referência europeia negociada no ICE em dólares por tonelada. Essa margem subiu de 700 para quase 1600 dólares, mais do que duplicando e aumentando muito mais do que o próprio preço do barril de petróleo. O crack spread, que normalmente ronda os 25 dólares, chegou quase aos 100 dólares.
Uma tonelada de gasóleo corresponde a cerca de 7,45 barris de petróleo de 60 galões (à volta de 159 litros por barril). No dia 27 de fevereiro, a tonelada de gasóleo negociava perto dos 750 dólares, correspondendo a 100 dólares por barril equivalente (750 dividido por 7,45), numa altura em que o barril de petróleo negociava perto dos 70 dólares, ou seja, uma margem de refinação de aproximadamente 30 dólares. No máximo atingido no início de abril, a tonelada de gasóleo chegou aos 1580 dólares, com o barril de petróleo perto dos 120 dólares. Isso implicava uma margem próxima dos 92 dólares por barril equivalente (1580 dividido por 7,45 menos 120), impulsionando o preço do litro de gasóleo em Portugal para níveis bastante superiores aos da gasolina, algo pouco habitual no mercado português. Entretanto, a volatilidade tem vindo a descer consideravelmente nos últimos dois meses, tal como a margem de refinação do gasóleo nos mercados internacionais, voltando o gasóleo a ficar mais barato do que a gasolina em Portugal, como é habitual. Ainda assim, na última semana, o barril de petróleo voltou a subir e negoceia já próximo dos 110 dólares, aproximando-se dos máximos recentes de 120 dólares e reacendendo receios de nova pressão sobre as margens de refinação do gasóleo.
Todavia, a volatilidade na negociação do petróleo, medida pelo índice OVX, que reflete a incerteza e o risco no mercado, não acompanhou esta última subida do barril, o que indicia alguma tranquilidade nos mercados energéticos internacionais. Os investidores parecem encarar esta mais recente subida do petróleo como um movimento mais pontual do que estrutural. Assim, dificilmente a margem de refinação do gasóleo voltará a subir acentuadamente apenas com a subida do preço do petróleo. Para que o crack spread do gasóleo suba de forma significativa, não basta uma valorização do barril, mas é também necessário um aumento da volatilidade, sinalizando receios quanto ao fornecimento mundial de petróleo. Portanto, se a volatilidade não voltar a subir nas próximas semanas, dificilmente o gasóleo ficará novamente mais caro do que a gasolina em Portugal.
Paulo Monteiro Rosa, Economista sénior do Banco Carregosa