Venda do X à xAI pode ter riscos de privacidade?
O negócio estava a ser preparado, nos bastidores e sob total secretismo, há vários meses. O anúncio chegou na passada sexta-feira à noite, sem rumores que o fizessem antecipar. Elon Musk revelou que o futuro da xAI, a sua startup de inteligência artificial (IA), passaria a estar "interligado” com o do X, de que também é proprietário. Na prática, o empresário avançou que a empresa de IA comprou a rede social por 33 mil milhões de dólares, numa "transação completamente baseada em ações”.
Numa publicação no X, o multimilionário disse que este era um "passo para combinar os dados, os modelos, a computação, a distribuição e o talento” numa fusão que, afirmou, "irá desbloquear um potencial imenso ao combinar a capacidade e a experiência avançadas de IA da xAI com o enorme alcance do X”. Não foram revelados mais detalhes e as duas empresas têm-se recusado a responder a pedidos de esclarecimento.
Musk diz que a (sua) startup xAI comprou a (sua) rede social X por 33 mil milhões
Há pormenores que continuam por esclarecer, mesmo dias após o anúncio do negócio. Por exemplo, é incerta a forma como a liderança do X será integrada na nova empresa, denominada XAI Holdings, e o papel que Linda Yaccarino, CEO da rede social, terá. Na sexta-feira, a empresária disse apenas que "o futuro não podia ser mais risonho”. Já esta segunda-feira deixou a seguinte mensagem aos seguidores: "Novo amanhecer, novo dia, nova semana, nova empresa.”
New dawn, new day, new week, new company. LFG ???? @xai @X — Linda Yaccarino (@lindayaX) March 31, 2025
A XAI Holdings está avaliada em mais de 100 mil milhões de dólares (valor que excluí a dívida), indicou uma fonte, que pediu para não ser identificada, ao revelar o nome da nova empresa à Bloomberg . Elon Musk ainda não anunciou quem vai liderar as operações conjuntas, que geram preocupação entre especialistas devido à privacidade dos utilizadores face ao chatbot Grok (desenvolvido pela xAI e também disponível no X).
xAI e X: duas empresas a combinar sinergias desde sempre
A rede social X ficou avaliada em 33 mil milhões de dólares com o negócio. A xAI, fundada em 2023 com o objetivo de tentar competir diretamente com a OpenAI, proprietária do ChatGPT, em 80 mil milhões de dólares. Um investidor da startup disse à agência Reuters , sob condição de anonimato, que não ficou surpreendido com a fusão e que Musk não pediu a aprovação dos investidores para concretizá-la. Ainda assim, o empresário disse-lhes que as duas firmas colaboravam estreitamente e que a fusão levaria a uma maior integração com o Grok.
As duas empresas partilham sinergias desde que a xAI foi criada: desde trabalhadores ao mesmo escritório em Palo Alto, na Califórnia, ou vários dos mesmos investidores, como as firmas Sequoia Capital, Vy Capital, Fidelity e Valor Equity Partners. Mas mais do que isso. Os modelos de inteligência artificial da xAI já são treinados com base em dados publicados por utilizadores do X. No "centro de ajuda” da rede social está explícito que podem ser partilhados dados dos utilizadores, como "perfil público, publicações públicas, engajamento e interesses”, incluindo a forma como interagem com o Grok, com a xAI. "Estes dados ajudam-nos a personalizar as interações com o Grok, tornado-as mais relevantes e envolventes”, lê-se na publicação, que acrescenta que é possível "controlar quando pretende que os seus dados sejam utilizados para personalizar o Grok e outros modelos de IA desenvolvidos pela xAI” nas definições de privacidade.
Startup de Musk apresenta Grok 3, um novo chatbot para rivalizar com ChatGPT e DeepSeek
Com a fusão, a integração passará a ser maior, o que deixa alguns especialistas em alerta. Angus Allan, gestor sénior de produto na empresa de software CreateFuture, avisa que "existem implicações significativas para a privacidade dos utilizadores”. "A fusão altera fundamentalmente a relação entre as plataformas. Anteriormente, o Grok era uma ferramenta opcional no X. Agora, com a xAI como empresa-mãe, essa separação desapareceu. Uma alteração dos termos de serviço em novembro já tinha alargado os direitos do X de usar os conteúdos do utilizador para treinar a IA, incluindo o direito de fazer upload de download de conteúdos com qualquer finalidade. Esta fusão elimina quaisquer barreiras remanescentes , o que significa que a atividade dos utilizadores na rede social está agora diretamente integrada nos dados de treino da IA”, defende.
Além disso, afirma Angus Allan, em respostas escritas enviadas ao Observador, "as mensagens diretas também são motivo de preocupação uma vez que, embora a encriptação esteja disponível, não é predefinida e ‘todo o conteúdo do utilizador’ está incluído na política de privacidade, o que sugere que as mensagens privadas poderão ser utilizadas para treinar [a IA] no futuro”. O especialista diz ainda que os utilizadores europeus podem opor-se ao processamento dos seus dados para treino de inteligência artificial através das "definições da conta” devido ao Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD), mas lembra que isso "não remove retroativamente os dados já usados para treinar modelos existentes”.
A opinião é seguida por Camden Woollven, que faz parte do departamento de marketing de produtos de IA do GRC International Group, especializado em compliance com proteção de dados e cibersegurança, que alerta que o negócio representa, "definitivamente”, uma "preocupação”. "A fusão significa que a xAI agora tem acesso direto a todos os dados que circulam pelo X — estamos a falar de posts , mensagens, imagens, talvez até informações de localização, dependendo do que as pessoas partilham. É provável que os dados estejam a ser utilizados para treinar o Grok e quaisquer futuras ferramentas de IA que venham a ser criadas”, salienta a especialista, em declarações à revista Forbes .
Já Eric Talley, professor na Columbia Law School, adota uma posição mais moderada e começa por lembrar que os dados dos utilizadores do antigo Twitter já estão a ser utilizados para treinar modelos da xAI. Mas admite, ao Observador e ainda que sem apresentar mais detalhes, que a fusão "pode apresentar algum perigo para os utilizadores do X”.
Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, considera que a vantagem da aquisição é que "permite à xAI ter dados exclusivos e massivos para treinar o Grok”, nomeadamente "milhares de milhões de posts , interações e conteúdos” do X. Todavia, defende que "há riscos, como a privacidade dos utilizadores”, envolvidos no negócio. "Mesmo que os dados sejam ‘públicos’, provavelmente muitas pessoas não esperam que as suas conversas e opiniões sejam usadas para treinar uma IA. Eventualmente, haverá um consentimento implícito, mas […] poucos os utilizadores leem esses documentos [os termos e condições]”.
Questionado sobre se o negócio pode tornar o Grok num chatbot mais tendencioso, numa altura em que a moderação de conteúdos no X é cada vez menor (uma redução implementada desde a aquisição de Musk, que se auto-denomina um absolutista da liberdade de expressão), Paulo Monteiro Rosa diz que "este é o ponto mais crítico e preocupante” mas deixa a resposta no ar, enumerando várias questões. "Houve um aumento do discurso de ódio, spam e conteúdos extremistas? Em caso positivo, se o Grok for treinado com dados provenientes diretamente do X, sem filtros, existe um risco elevado de enviesamento ideológico e político? Pode refletir opiniões extremas ou polarizadas? Ou os comentários mais extremados, existindo direito ao contraditório, são contrabalançados por respostas aos comentários por pessoas mais moderadas e, assim, é promovido o debate e, isso, enriquece os modelos de linguagem de IA?”
Em suma, volta a questionar o economista sénior do Banco Carregosa, " a falta de moderação pode contaminar o Grok, tornando-o menos neutro e mais ‘caótico ‘ do que outros chatbots que são treinados com dados filtrados e equilibrados? Ou mais realista e moderado devido à existência de contraditório ?”.
Também Vítor Madeira, analista da XTB, diz ao Observador que a possibilidade de o Grok se tornar num chatbot diferente devido à fusão entre X e xAI "é uma questão mais técnica” à qual não consegue dar uma resposta exata. Quanto à questão da privacidade dos utilizadores, lembra que a "recolha de dados para desenvolvimento destes modelos não é uma novidade no setor tecnológico, sendo amplamente utilizada por várias empresas”.
Uma vez que há uma aposta cada vez maior no desenvolvimento de ferramentas de IA e que a utilização das mesmas também é cada vez mais comum, é de esperar que sejam necessários cada vez mais dados para garantir uma utilização eficaz desses mecanismos. No entanto, este crescimento deverá ser acompanhado de legislação que garanta uma utilização responsável desses dados e a segurança dos mesmos”, defende.
Uma ‘jogada’ que já tinha sido feita antes (noutros moldes)
O inesperado anúncio da venda da rede social X à startup xAI rapidamente gerou comparações, por parte de meios de comunicação norte-americanos como o The New York Times, com um outro negócio feito por Elon Musk. Em 2016, a fabricante de carros elétricos Tesla, de que o empresário é CEO, comprou a SolarCity , uma empresa de painéis solares fundada dez anos antes por dois primos seus, Lyndon e Peter Rive.
Segundo o Business Insider , a empresa foi fundada por sugestão do próprio Elon Musk, que investiu 10 milhões de dólares no projeto e que na altura da venda detinha uma participação de 22%. Em 2017, um grupo de acionistas da Tesla entrou com um processo em tribunal para que fosse decidido se o empresário tinha feito o negócio, que rondou os 2,6 mil milhões de dólares, em benefício da Tesla ou de si próprio.
Nesse mesmo ano, em que se assinalou o primeiro aniversário da aquisição, os dois fundadores deixaram a SolarCity. Lyndon Rive disse aos trabalhadores que pretendia começar uma nova startup e que deixava a empresa "mais saudável [financeiramente] do que nunca”. Já Peter Rive disse que pretendia focar-se "noutros projetos”: "Tenciono passar mais tempo a explorar o ar livre, mais tempo com a minha família e a ajudar projetos solares sem fins lucrativos no mundo em desenvolvimento.”
O julgamento arrancou anos depois, em 2021, com os queixosos a alegarem que Musk se aproveitou da sua posição dominante, uma vez que era o maior acionista da SolarCity, e de ter inflacionado o valor da empresa. Os restantes sócios chegaram a acordo com o grupo de acionistas e pagaram 60 milhões de dólares, sendo que não foram presentes a juiz.
Accionistas da Tesla levam Elon Musk a tribunal
Em 2022, a justiça dos EUA deu razão a Elon Musk mas os queixosos interpuseram um recurso junto do Supremo Tribunal do estado norte-americano do Delaware. No ano seguinte, segundo a agência Reuters , também esse tribunal considerou que o empresário, apesar de ser o maior acionista das duas empresas à época da venda, não fez pressão para que a Tesla pagasse mais pela SolarCity.