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06 outubro 2026
07h52
Fonte:
Jornal de Negócios
Centros de dados ameaçam deixar Rio Tejo a seco
A instalação de dois megacentros de dados no concelho de Abrantes levanta junto de duas organizações ambientais "sérias dúvidas sobre os seus impactos ambientais, nomeadamente no que respeita ao consumo energético; à qualidade e disponibilidade dos recursos hídricos; ao uso e ocupação do solo; à poluição sonora e à criação de ilhas de calor".Para a Quercus, "as metas de transição digital e energética não podem atropelar a salvaguarda ambiental e o ordenamento do território". Nesse sentido, exigem "um Estudo de Impacto Ambiental cumulativo, que avalie de forma integrada os impactos somados de ambos os centros de dados (do grupo Hyperion e da EDC ONE)".A mesma exigência é indicada pelo movimento proTEJO, que também defende a aplicação de limites legais ao consumo de água e energia dos centros de dados, alertando para a pressão sobre a bacia hidrográfica. "O Tejo já não tem margem para ser a torre de arrefecimento da inteligência artificial europeia. Quem quiser instalar-se na sua bacia tem de provar, primeiro, que não vai precisar da sua água", sustenta o movimento.O proTEJO defende ainda que os promotores revelem a tecnologia de arrefecimento e o consumo de água previsto, que sejam fixados limites máximos vinculativos de eficiência hídrica e energética e publicados os dados de desempenho de cada centro de dados.Segundo estimativas do movimento, os dois projetos poderão consumir, em plena capacidade, entre 3,6 e 22,2 milhões de litros de água por dia, consoante a tecnologia de arrefecimento adotada, informação que, segundo o pro TEJO, ainda não foi divulgada pelos promotores. Em termos comparativos, 3,6 milhões de litros por dia "corresponde a 1314 hm3 por ano, ou seja, cerca de metade de 2700 hm3 que é o atual caudal mínimo anual afluente de Espanha nos termos da Convenção de Albufeira", alerta o proTEJO. De acordo com o movimento, esta procura de água surge numa altura em que a Agência Portuguesa do Ambiente prevê um agravamento da escassez na bacia do Tejo entre 2028 e 2033, período que coincide com a entrada em funcionamento prevista dos projetos, estando já parte significativa das massas de água superficiais e subterrâneas abaixo do 'Bom Estado'.Em matéria energética, o proTEJO estima um consumo conjunto máximo de 4380 gigawatts-hora por ano, tendo por referência uma capacidade conjunta de 500 megawatts, quase 29 vezes o consumo anual de eletricidade do concelho de Abrantes. O movimento reconhece "o valor da modernização digital e da atração de investimento para o Médio Tejo", mas considera que os projetos devem ser avaliados.A associação ambientalista Quercus e o movimento proTEJO defendem que as povoações de Alvega e Concavada têm de ser ouvidas sobre os projetos, nomeadamente se colocam no limite as reservas de água do Tejo. A EDC One prevê investir 7 mil milhões de euros com entrada em funcionamento em 2028 e criação de 450 postos de trabalho diretos e 700 indiretos até 2030. O segundo projeto, da Hyperion II Renewables Services recebeu em maio um parecer municipal favorável. Com uma área de cerca de 15 hectares deverá abrir em 2029.O Plano Nacional de Centros de Dados classifica estas infraestruturas estratégicas para a economia e soberania digital e prevê medidas para facilitar e coordenar o investimento, determinando simultaneamente o cumprimento das regras ambientais. A EDC One e a Hyperion II Renewables Services solicitaram, entretanto, maior capacidade de ligação à rede elétrica, num zona de grande procura, estando os pedidos em análise, divulgou à Agência Lusa a ministra do Ambiente e Energia, Maria Graça Carvalho.