Qual o impacto da Inteligência Artificial nas yields de longo prazo?

Resumo:
• A Inteligência Artificial não é atualmente um dos principais fatores explicativos das yields de longo prazo. Inflação, política monetária, perspetivas de crescimento, necessidades de financiamento público e prémios de prazo continuam a ser os principais factores.
• O principal canal de transmissão para as taxas de longo prazo poderá ocorrer através da taxa real de equilíbrio da economia, e não de uma competição direta entre dívida empresarial e soberana.
• Caso a IA aumente de forma persistente a produtividade e o retorno esperado sobre novos investimentos, a taxa de juro real neutra poderá também ser superior.
• Para os investidores, a questão fundamental é saber se a economia mundial está a transitar para um regime em que as taxas reais permanecem estruturalmente acima das observadas na década de 2010, com implicações para a valorização de praticamente todas as classes de ativos.
O desenvolvimento da Inteligência Artificial está a desencadear um ciclo de investimento de dimensão elevada numa economia que enfrenta necessidades elevadas de financiamento público, defesa, energia, infraestrutura e reindustrialização. A IA não explica o atual nível das yields de longo prazo, mas poderá contribuir, ao longo do tempo, para alterar o equilíbrio entre poupança e investimento e elevar a taxa real de juro compatível com o crescimento da economia.
Durante grande parte da década que se seguiu à crise financeira global, o enquadramento económico foi marcado por uma abundância relativa de capital. O investimento privado manteve-se moderado, a inflação permaneceu baixa, a poupança global era elevada e os principais bancos centrais absorviam volumes significativos de dívida pública através dos seus programas de compra de ativos. Este conjunto de fatores contribuiu para um período prolongado de taxas reais muito reduzidas e, em vários momentos, negativas. Para os investidores, isso significou crédito barato, valorização dos ativos de longa duração e uma procura persistente por alternativas capazes de oferecer rendimento. O contexto atual é substancialmente diferente. A yield real da Treasury norte-americana a 10 anos encontrava-se, à data de redação, em cerca de 2,4%, enquanto a maturidade a 30 anos se aproximava dos 3%. Durante grande parte da década anterior, os mercados soberanos das principais economias desenvolvidas raramente ofereceram remunerações reais desta magnitude.

Fonte: Board of Governors of the Federal Reserve System, via FRED – Federal Reserve Bank of St. Louis.
Para um investidor, esta alteração é particularmente relevante. Quando os ativos soberanos de maior qualidade voltam a oferecer remunerações reais significativas, aumenta inevitavelmente a fasquia exigida para investir em crédito, ações, imobiliário ou mercados privados. O retorno adicional esperado destes ativos tem de compensar um custo de oportunidade substancialmente superior. Não existe, contudo, uma explicação única para a subida das taxas de longo prazo. As yields incorporam perspetivas de crescimento e inflação, risco fiscal, oferta de dívida e o prémio adicional exigido pelos investidores para deter obrigações de longa maturidade. Neste enquadramento, a Inteligência Artificial não é atualmente um dos principais fatores explicativos do nível das yields. Poderá, no entanto, ganhar relevância à medida que a sua implementação aumenta as necessidades de investimento e, potencialmente, a capacidade produtiva das economias.
Antes de analisar este canal, importa reconhecer que a principal fonte de pressão sobre os mercados de financiamento continua a encontrar-se no setor público. A OCDE estima que as necessidades brutas de financiamento soberano dos seus países membros atinjam cerca de 18 biliões de dólares em 2026, face a aproximadamente 12 biliões em 2022. Considerando governos e empresas em conjunto, os mercados obrigacionistas deverão absorver cerca de 29 biliões de dólares de financiamento ao longo deste ano.

Fonte: OECD Global Debt Report 2026; 2025 OECD Survey on Central Government Marketable Debt and Borrowing; OECD Economic Outlook; LSEG; autoridades nacionais; cálculos da OCDE.
A dimensão destas necessidades é relevante, mas o contexto em que são financiadas também mudou. Durante os programas de quantitative easing, os bancos centrais desempenhavam o papel de grandes compradores de dívida soberana e, sobretudo, de compradores relativamente pouco sensíveis ao preço. O objetivo dessas aquisições era a implementação da política monetária e não a maximização do retorno financeiro. À medida que os balanços dos bancos centrais diminuem ou deixam de crescer, uma parcela superior da dívida precisa de ser absorvida por investidores privados (fundos de pensões, seguradoras, gestores de ativos e investidores particulares) cuja procura depende mais diretamente da remuneração oferecida. Ao mesmo tempo, dificilmente as necessidades de financiamento público regressarão rapidamente aos níveis observados antes da pandemia. Défices estruturais elevados, envelhecimento demográfico, defesa, infraestrutura e transição energética continuarão a exigir recursos significativos. Só estes fatores permitem justificar uma discussão sobre um regime de taxas reais potencialmente superior ao da década passada.
O que a Inteligência Artificial acrescenta é uma nova fonte de investimento privado numa altura em que a economia já apresenta necessidades elevadas de capital. Durante anos, as maiores empresas tecnológicas personificaram um modelo de crescimento relativamente pouco intensivo em ativos físicos: software altamente escalável, margens elevadas, balanços sólidos e capacidade para crescer sem um aumento proporcional do capital investido. A IA está a alterar parcialmente este modelo.
O desenvolvimento e utilização dos novos modelos exige uma infraestrutura física de enorme dimensão: data centers, semicondutores avançados, servidores, fibra ótica, sistemas de refrigeração, ligações às redes elétricas e nova capacidade de produção energética. Aquilo que inicialmente poderia ser entendido como uma nova revolução de software está, por isso, a traduzir-se num dos maiores ciclos recentes de investimento privado em infraestrutura. O BIS estima que os cinco maiores hyperscalers gastem mais de um bilião de dólares em capex relacionado com IA entre 2025 e 2026. Em algumas destas empresas, os compromissos de investimento estão a aumentar mais rapidamente do que os resultados e o free cash flow, tornando progressivamente mais relevante o recurso a fontes externas de financiamento.

Fonte: BIS Annual Economic Report 2026; S&P Global Market Intelligence; Bank of America; comunicações das empresas; BIS.
Importa, contudo, não retirar daqui uma conclusão demasiado direta para os mercados soberanos. Um dólar aplicado pela Microsoft num data center não corresponde automaticamente a um dólar que deixa de estar disponível para financiar o Tesouro norte-americano. A quantidade de financiamento disponível numa economia não é fixa. A poupança pode aumentar, o crédito bancário pode expandir-se e as empresas podem recorrer simultaneamente a ações, obrigações, private credit ou outras estruturas de financiamento. O mecanismo económico relevante é mais amplo.
Se as oportunidades de investimento aumentarem de forma persistente relativamente à poupança disponível, a taxa real necessária para equilibrar ambos poderá também aumentar. É neste sentido que a IA poderá adquirir importância para as taxas de longo prazo. O aumento da emissão obrigacionista das grandes empresas tecnológicas constitui uma manifestação visível desta transformação, embora não deva ser confundido com a sua causa principal.
Até meados de agosto, empresas associadas ao investimento em IA tinham emitido quase 220 mil milhões de dólares em obrigações durante 2026, mais do dobro dos aproximadamente 108 mil milhões registados em todo o ano anterior. Apesar da dimensão absoluta destes montantes, importa manter a perspetiva. O mercado global de dívida pública e empresarial é incomparavelmente maior e não existe atualmente evidência suficiente para atribuir à emissão das empresas tecnológicas uma parcela significativa dos movimentos das Treasuries a 10 ou 30 anos. Os efeitos são, para já, mais evidentes dentro do próprio mercado de crédito.
O aumento da oferta obrigacionista por parte dos hyperscalers tem coincidido com algum alargamento de spreads, maiores concessões nas novas emissões e uma redução dos rácios de cobertura das operações. Em julho, por exemplo, uma emissão da Amazon recebeu procura equivalente a cerca de 1,6 vezes o montante colocado, face a 3,4 vezes numa operação realizada em março. Isto não sugere qualquer dificuldade relevante de financiamento. Empresas como Amazon, Microsoft ou Alphabet continuam a beneficiar de elevada qualidade de crédito, balanços robustos e excelente acesso aos mercados. Mostra, contudo, que o volume de capital necessário para financiar a expansão da IA está a tornar-se economicamente relevante.
A OCDE estima que nove grandes hyperscalers apresentem necessidades acumuladas de capex de cerca de 4,1 biliões de dólares entre 2026 e 2030. Num cenário em que metade desse investimento fosse financiado através de obrigações, estes emitentes poderiam representar uma parcela material da emissão empresarial global anual.

Fonte: OECD Global Debt Report 2026; OECD Capital Market Series; LSEG; FactSet.
A questão mais relevante não é, portanto, saber se estas emissões estão hoje a provocar uma subida das yields soberanas. É perceber se a magnitude do investimento associado à IA poderá, ao longo do tempo, contribuir para alterar o nível de equilíbrio das taxas reais. É aqui que entra o conceito de taxa de juro real neutra.
De forma simplificada, a taxa de juro real neutra corresponde à taxa real compatível com uma economia a crescer próximo do seu potencial, sem gerar um excesso persistente de procura. Não é uma variável diretamente observável e as estimativas apresentam uma margem de incerteza considerável. Ainda assim, constitui uma referência importante para compreender o nível de equilíbrio das taxas de juro num horizonte de longo prazo.
A relação com a Inteligência Artificial resulta sobretudo do potencial impacto sobre a produtividade e sobre o retorno esperado do investimento. Se a IA permitir às empresas produzir mais com os mesmos recursos, automatizar processos e desenvolver novos produtos e serviços, a produtividade poderá aumentar. Mas uma economia mais produtiva oferece também, potencialmente, um conjunto mais vasto de oportunidades de investimento rentável. As empresas estarão então dispostas a investir mais e a captar mais financiamento, porque o retorno esperado dos novos projetos também é superior. Em simultâneo, expectativas de rendimentos futuros mais elevados podem reduzir o incentivo à poupança corrente. Caso a procura por investimento aumente mais rapidamente do que a oferta de poupança, a taxa real necessária para equilibrar ambos os lados poderá subir. Esta é provavelmente a ligação mais relevante entre a Inteligência Artificial e as taxas de longo prazo.
A IA não precisa de provocar diretamente uma deslocação de investidores da dívida soberana para a dívida tecnológica. Basta que aumente de forma persistente a produtividade, as oportunidades de investimento e o retorno esperado sobre o capital para que a taxa real de equilíbrio possa ser superior.
E aqui existe um paradoxo aparente. A Inteligência Artificial é frequentemente apresentada como uma tecnologia potencialmente desinflacionista. Maior produtividade permite produzir mais utilizando os mesmos recursos, automatizar processos, reduzir custos e aumentar a eficiência. Tudo o resto constante, isso deverá aliviar algumas pressões sobre os preços. Mas menor inflação não implica necessariamente taxas reais inferiores. Se a IA elevar o crescimento potencial da economia e aumentar o retorno marginal do capital, uma economia mais produtiva poderá ser simultaneamente compatível com uma taxa real neutra mais elevada.
Além disto, existe uma diferença temporal importante entre investimento e produtividade. O capital necessário para construir a infraestrutura é mobilizado hoje, enquanto a magnitude dos ganhos de produtividade apenas poderá ser conhecida ao longo dos próximos anos. Durante esta fase inicial, o boom da IA aumenta a procura por equipamento, energia, terrenos, construção e trabalhadores especializados. O BIS identifica já constrangimentos em eletricidade, semicondutores avançados e equipamento para redes elétricas associados à velocidade do investimento em infraestrutura de IA. Uma tecnologia potencialmente desinflacionista no longo prazo pode, assim, exercer no curto e médio prazo pressão adicional sobre recursos físicos e financeiros. Não existe necessariamente uma contradição entre os dois efeitos: o investimento antecede os ganhos de produtividade.
O enquadramento de investimento global é atualmente muito mais amplo. A Europa pretende aumentar significativamente a despesa em defesa. A eletrificação exige redes e nova capacidade de produção energética. A reorganização das cadeias de abastecimento implica novas unidades industriais. O envelhecimento demográfico pressiona as finanças públicas. E os governos mantêm necessidades de financiamento elevadas. A IA acrescenta data centers, semicondutores, redes e energia a este conjunto.

Fonte: OECD Global Debt Report 2026; LSEG; AOFM; ECB; Nakajima (2026); Federal Reserve Bank of New York; UK DMO; cálculos da OCDE.
Mais do que uma questão de concorrência direta por financiamento, o que poderá estar a emergir é uma mudança na relação entre o volume de investimento desejado pela economia e a poupança disponível para o financiar. Este enquadramento contrasta com grande parte da década de 2010. Nessa altura, a discussão económica incidia frequentemente sobre a existência de poupança abundante face a um número relativamente reduzido de oportunidades de investimento, uma combinação que contribuiu para manter as taxas reais em níveis historicamente baixos. Hoje estamos perante um cenário diferente: mais oportunidades de investimento, maiores necessidades públicas de financiamento e uma menor disponibilidade de capital aos preços que prevaleceram na década anterior.
Para um investidor de longo prazo, esta discussão tem implicações importantes. Se as taxas reais de equilíbrio permanecerem estruturalmente mais elevadas, a alteração afeta praticamente todas as classes de ativos. Nas obrigações, cria novamente condições para obter remunerações reais relevantes através de emitentes de elevada qualidade, sem necessidade de assumir níveis excessivos de risco de crédito. Nas ações, uma taxa de desconto superior aumenta a importância da geração efetiva de caixa, da rentabilidade sobre o capital investido e da disciplina na alocação de capital. Empresas cuja valorização depende sobretudo de resultados muito distantes no futuro tornam-se, tudo o resto constante, mais sensíveis às taxas de juro. No imobiliário e nos mercados privados, os retornos esperados têm igualmente de competir com uma taxa sem risco mais exigente. E no próprio universo da Inteligência Artificial, a distinção entre investimento e criação de valor poderá tornar-se cada vez mais relevante. O crescimento do capex não garante, por si só, retornos superiores para os acionistas. Será necessário distinguir entre empresas que fornecem a infraestrutura, empresas capazes de monetizar essa capacidade e projetos cujo retorno económico poderá não justificar o capital investido.
Num contexto de taxas reais mais elevadas, a capacidade de gerar retornos sustentáveis acima do custo de capital volta a assumir um papel central na seleção de investimentos. Durante anos, muitos investidores assumiram que, ultrapassado o choque inflacionista associado à pandemia, as taxas de juro acabariam por regressar aos níveis muito baixos que caracterizaram a década anterior. Essa conclusão poderá revelar-se demasiado simples. Se as necessidades públicas de financiamento permanecerem elevadas, se defesa, energia, infraestrutura e reindustrialização exigirem mais investimento e se, simultaneamente, a Inteligência Artificial aumentar de forma significativa a produtividade, o retorno sobre o capital e o número de projetos economicamente viáveis, a taxa real necessária para equilibrar poupança e investimento poderá permanecer acima daquela que caracterizou os anos 2010.
A questão relevante para os mercados não é, por isso, saber se a IA está hoje a fazer subir a yield da Treasury a 10 anos. É perceber se a nova vaga de investimento que está a desencadear poderá contribuir para uma economia em que as taxas reais persistentemente baixas deixam de ser a referência e em que o custo do capital volta a desempenhar um papel mais determinante na valorização dos ativos financeiros.
Aviso Legal: Este artigo foi preparado pelo Banco Carregosa com fins meramente informativos e educativos, não constituindo, em circunstância alguma, uma proposta de investimento, recomendação de compra ou aconselhamento financeiro personalizado. O investimento em instrumentos financeiros envolve riscos, incluindo a possibilidade de perda do capital investido. A rentabilidade histórica não é garantia de rentabilidade futura. Recomendamos que consulte um gestor de conta ou consultor financeiro antes de tomar qualquer decisão de investimento, para garantir que a mesma se adequa ao seu perfil de risco e objetivos financeiros.