Novo déjà vu francês, mas agora o colapso vem de dentro, não da oposição
A França volta a mergulhar no caos político com a demissão do primeiro-ministro Sébastien Lecornu, num cenário que parece um déjà vu das sucessivas crises que têm marcado este segundo mandato de Emmanuel Macron. No entanto, desta vez poderá ser diferente, já que o colapso do governo não foi provocado pela oposição, mas pelos próprios aliados do presidente, revelando a fragmentação interna da coligação centrista.
Desde as eleições antecipadas de 2024, que deixaram o Parlamento sem maioria estável, o país vive num impasse político permanente, com governos de curta duração e uma crescente desconfiança dos mercados. A deterioração das contas públicas francesas reforça este clima de incerteza, enquanto o esgotamento do modelo de alianças de Macron, a ascensão do Rassemblement National de Marine Le Pen e Jordan Bardella e a aproximação das presidenciais de 2027 acentuam a sensação de fim de ciclo e de reconfiguração do sistema político francês.
Desde meados de 2024, os spreads das obrigações do Tesouro francês a 10 anos face às alemãs têm refletido a crescente instabilidade política em França. A 27 de junho de 2024, o diferencial atingiu um máximo de 0,82%, numa altura em que o presidente francês, Emmanuel Macron, já tinha dissolvido a Assembleia Nacional e convocado eleições legislativas antecipadas, em 9 de junho, gerando um crescendo de incerteza nos mercados quanto à capacidade de o país formar uma maioria estável. O prémio de risco francês aumentou visivelmente, à medida que os investidores exigiam retornos mais elevadas para compensar o risco político.
A 2 de dezembro de 2024, o spread atingiu um novo máximo, de 0,88%, quando o governo de Michel Barnier foi derrubado por uma moção de censura, provocando uma nova crise institucional e intensificando a perceção de paralisia política em Paris, penalizando a dívida soberana francesa. A 27 de agosto de 2025, o spread regressou novamente aos 0,82%, após o então primeiro-ministro, François Bayrou, anunciar um voto de confiança para o início de setembro, aumentando o receio de mais uma queda do governo e de novas eleições antecipadas.
Agora, no início de outubro de 2025, o spread voltou a agravar-se e está muito próximo do máximo de junho de 2024, já nos 0,85%, refletindo a persistente incerteza política após a demissão de Sébastien Lecornu, apenas 27 dias depois de ter sido nomeado primeiro-ministro.
A dificuldade de Macron em garantir uma coligação estável e a possibilidade de nova dissolução parlamentar continuam a aumentar a perceção de risco por parte dos investidores. Um diferencial acima dos 100 pontos base face à dívida alemã seria já preocupante, funcionando como barreira psicológica e uma maior monitorização por parte do BCE, que muito provavelmente interviria se o agravamento se aproximasse dos 150 pontos base, números semelhantes aos registados durante a crise da dívida soberana europeia em 2011, cenário que se poderia materializar caso fossem convocadas eleições antecipadas para a presidência da República.
O agravamento das tensões políticas prende-se sobretudo com a deterioração das contas públicas francesas, e a diferente abordagem a este problema pelos diferentes partidos do espectro político francês. A despesa pública francesa é estruturalmente rígida e dificilmente poderá ser compensada por um aumento da carga fiscal. Qualquer subida de impostos tenderia a ter um efeito limitado na arrecadação fiscal, uma vez que a economia francesa já se encontra, muito provavelmente, na fase descendente da curva de Laffer, ou seja, um aumento de impostos não só não geraria mais receitas, como poderia mesmo reduzi-las.
As finanças públicas francesas enfrentam défices orçamentais crescentes, já próximos dos 6% do PIB, o que acelera o aumento do rácio da dívida pública. Ou seja, o numerador (dívida) cresce a um ritmo muito mais rápido do que o denominador (PIB nominal), que tem evoluído lentamente devido à estagnação económica.
A perceção de risco associada à dívida francesa já supera a da Grécia — não porque o rácio da dívida gaulesa seja mais elevado ou a sua notação de crédito inferior à helénica, mas devido às tendências divergentes. Enquanto a Grécia apresenta uma melhoria gradual das contas públicas, com um excedente orçamental de 1,3% em 2024, redução do rácio da dívida e melhorias no rating de crédito, em França a trajetória é precisamente a inversa.
A persistente instabilidade política, ditada sobretudo pelo enfraquecimento das contas públicas francesas, representa hoje um risco sistémico para a Zona Euro. Sendo parte essencial do eixo franco-alemão que sustenta a integração europeia, qualquer agudização da crise gaulesa obrigará o BCE a reforçar a sua presença nos mercados para conter a fragmentação financeira.
Se Paris não recuperar estabilidade e credibilidade, o equilíbrio político e económico da União Europeia poder-se-á alterar, colocando em causa o próprio projeto europeu.
Paulo Monteiro Rosa, Economista sénior do Banco Carregosa