ROA ou Return on Assets: O que é, por que é importante e como calcular

O caso da fintech alemã Wirecard ilustra a importância de analisar o indicador ROA. Em 2018, a empresa era uma estrela em ascensão, por exemplo valendo em bolsa mais que o Deutsche Bank. Contudo, em 2020, revelou-se incapaz de identificar 1,9 mil milhões de euros em ativos, culminando em insolvência e perdas massivas para investidores. O seu antigo CEO continua em fuga das autoridades até hoje.
Mas, para quem olhava com atenção para os indicadores de rentabilidade, especialmente o ROA, os números contavam uma história diferente: a rentabilidade dos ativos era metade da dos concorrentes diretos. Dados da Bloomberg mostram que, apesar do crescimento das receitas, o ROA da Wirecard era metade do de concorrentes como a Visa ou a Mastercard, sinalizando ineficiência ou sobre-avaliação dos ativos.
Claro que a análise deste indicador não basta para explicar tudo o que correu mal no caso Wirecard. Mas é um poderoso lembrete de que números isolados, como lucros ou receitas, não são suficientes para avaliar uma empresa. É fundamental entender como uma empresa transforma os seus recursos em resultados financeiros concretos. E é exatamente aqui que entra o indicador ROA. Descubra o que é e como usar esta métrica para proteger os seus investimentos.
O que é o ROA e como se calcula?
O ROA, ou Return on Assets, ou retorno sobre ativos, mede a capacidade de uma empresa gerar lucro a partir dos seus ativos, respondendo à pergunta: "Quanto lucro obtém por cada euro de ativos?”.
A fórmula é simples:
ROA = Lucro Líquido / Ativos Totais
Por exemplo, um ROA de 5% indica que, para cada 100€ de ativos, a empresa gera 5€ de lucro. Esta métrica é crucial para avaliar a eficiência operacional e a rentabilidade sustentável.
Por que é o ROA tão relevante para investidores?
Como investidor, não basta saber se a empresa tem resultados positivos. É preciso saber se o faz de forma eficiente. O ROA ajuda a compreender se uma empresa:
• Gere ativos eficientemente: Empresas que usam os seus ativos de forma eficiente tendem a ter ROA mais elevados;
• Evita capital improdutivo: Um ativo parado, que não gera receita, pesa negativamente sobre este indicador;
• É competitiva no setor: Ao comparar o ROA entre empresas semelhantes, percebemos quem está a extrair mais valor do mesmo tipo de estrutura.
O caso da Wirecard mostra que um ROA baixo pode indicar ineficiência ou riscos ocultos, mesmo em empresas aparentemente lucrativas.
O que é considerado um bom ROA?
Não existe um valor de referência fixo que sirva para todas as empresas. O que é um bom ROA varia muito conforme o setor, o modelo de negócio e o contexto da empresa.
De forma geral, um ROA de 5% ou menos pode ser considerado baixo, enquanto um ROA acima de 20% é muito elevado. Porém, esses números devem ser sempre interpretados em comparação com outras empresas do mesmo setor.
Por exemplo, numa empresa que exige muitos ativos físicos, como um fabricante automóvel, um ROA de 1% a 5% pode ser aceitável. Já numa empresa de software, que usa poucos ativos tangíveis, um ROA alto é mais comum, porque os ativos contabilizados no balanço são relativamente baixos.O
ROA da Intel ao longo dos anos e a dificuldade em fazer investimentos rentáveis

Fonte: Seeking Alpha
Setores como bancos e instituições financeiras normalmente apresentam ROA mais baixos, pois os seus ativos, principalmente empréstimos, geram margens de lucro menores.
Por outro lado, empresas de tecnologia costumam ter ROA mais altos, pois conseguem gerar mais receita com poucos ativos físicos.
Como interpretar o ROA
O ROA não deve ser interpretado isoladamente. Uma análise correta requer atenção a três dimensões: setorial, temporal e estratégica.
Uma empresa industrial pesada, como uma fabricante de equipamentos ou de automóveis, normalmente apresenta um ROA mais baixo do que empresas de tecnologia ou serviços, que operam com ativos mais leves.
Por exemplo, uma empresa de software pode ter um ROA de 20% e estar apenas na média do setor, ao passo que uma empresa de construção civil com um ROA de 5% pode, na verdade, ser líder em eficiência no seu nicho.
O que fazer: Compare o ROA sempre com benchmarks do setor. Uma empresa pode parecer ineficiente à primeira vista, mas estar acima da média dos seus concorrentes diretos, o que é um excelente sinal.
2. Observe a tendência ao longo do tempo
Mais do que um valor isolado, o ROA ganha poder quando analisado como série temporal, isto é, ao longo de vários trimestres ou anos. Um ROA estável e crescente indica melhoria contínua na eficiência operacional.
Por outro lado, um ROA volátil ou em queda pode indicar problemas como má alocação de capital, aquisições ineficientes ou saturação de mercado.
O que fazer: Compare o ROA com as decisões estratégicas da empresa. Fusões, expansões, entrada em novos mercados, tudo isso afeta os ativos e pode distorcer o ROA temporariamente.
3. Analise a qualidade dos ativos
As empresas podem ter ativos altamente produtivos (como tecnologia proprietária ou uma carteira de clientes recorrente), ou ativos pouco eficientes (imóveis não explorados, stocks obsoletos, dívidas incobráveis).
Um ROA baixo pode significar que os ativos estão subutilizados, são pouco rentáveis, foram mal alocados ou estão sobrevalorizados contabilisticamente.
O que fazer: Analise a composição dos ativos, quanto está em caixa, quanto está em inventário e quanto está em intangíveis. As empresas muito capitalizadas, mas com baixa rentabilidade dos ativos podem estar a "empatar capital”.
4. Combine o ROA com outros indicadores para uma leitura completa
Nenhum indicador diz tudo sozinho. O ROA deve ser cruzado com outros rácios para fornecer uma imagem mais completa da saúde da empresa. Estes são os que deve considerar:
• ROE (Return on Equity): Revela a rentabilidade do capital próprio. Um ROE alto combinado com um ROA baixo pode indicar alavancagem excessiva;
• Margem Líquida: Mostra a capacidade de reinvestimento. Um ROA alto com margem líquida baixa pode ser insustentável;
• Rotação dos Ativos (Asset Turnover): Indica a eficiência em gerar receitas com os ativos. Um ROA baixo com alta rotação pode sugerir margens comprimidas.
Por exemplo, se uma empresa tem um ROA de 3% e um ROE de 15%, isso sugere que está altamente alavancada. Isso pode aumentar o retorno ao acionista, mas também o risco.
5. Considere o ciclo de vida da empresa
As empresas em estágios diferentes do ciclo de vida (startup, crescimento, maturidade, declínio) terão ROA diferentes e isso é natural.
• Startups: Podem ter ROA negativos durante anos, enquanto investem fortemente em ativos intangíveis;•Empresas em crescimento: Tendem a ter um ROA crescente à medida que atingem escala;
• Empresas mais maduras: Podem apresentar um ROA estável, e ser boas pagadoras de dividendos;
• Empresas em declínio: Muitas vezes mostram ROA em queda, o que é um sinal de alerta.
O que fazer: Alinhe o ROA com a estratégia e perfil de risco que pretende para a sua carteira. As empresas com ROA elevado e estável são normalmente menos voláteis, indicadas para investidores mais conservadores.
Como usar o ROA na seleção de Ações
Saber interpretar o ROA é o primeiro passo. O segundo, e mais estratégico, é usá-lo para escolher empresas com base em eficiência, sustentabilidade e solidez.
1. Filtrar empresas com eficiência operacional acima da média
O ROA pode ser um excelente filtro inicial para separar empresas que verdadeiramente geram valor daquelas que apenas "consomem recursos".
Comece por criar uma lista de empresas de um setor específico, por exemplo, utilities, retalho, tecnologia, energia. Assim, terá um ROA médio de referência para comparar com empresas que lhe parecerem interessantes.
2. Compare os resultados com o ROA
Uma empresa pode apresentar lucros elevados por motivos que não são sustentáveis, através de vendas pontuais de ativos, subsídios, manipulação contabilística ou aumento do endividamento para financiar crescimento artificial. Comparar o ROA e os resultados ajuda a despistar estes casos.
3. Identificar empresas "injustamente” desvalorizadas
O ROA também pode revelar oportunidades ocultas: empresas que são altamente eficientes, mas que o mercado ainda não as reconheceu como tal.
O que procurar:
• Empresas com ROA acima do setor, mas com ações negociadas a múltiplos baixos (por exemplo, rácio P/L ou EV/EBITDA abaixo da média);
• Negócios familiares, pouco visíveis na imprensa financeira, mas com gestão disciplinada e crescimento constante.
4. Monitorizar a evolução de empresas na carteira
Mesmo depois de investir, o ROA continua a ser uma ferramenta útil para monitorizar a saúde operacional da empresa ao longo do tempo. Uma queda progressiva no ROA pode sinalizar má alocação de capital, expansão mal gerida, perda de foco estratégico ou entrada em mercados com menor margem.
5. Ajustar o perfil de risco da carteira com base no ROA
O ROA pode ajudar a equilibrar a sua carteira de investimentos. As empresas com ROA alto e estável tendem a ser menos voláteis, mais resistentes em ciclos económicos difíceis e bons pagadores de dividendos (em maturidade). Já empresas com ROA baixo (mas potencial de crescimento) podem oferecer maior retorno com mais risco.
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